Aqui estamos de novo.
Me volto a mim, mais uma vez. Aqui dentro descubro todas as
grandes verdades do mundo que competem somente a mim o pertencer.
Ouço as teclas batendo contra meu dedo e reflito como sempre
me irritei com o som alto e perturbador que elas fazem no meio do silêncio que
insisto em preservar para que o momento que paira no ar se congele. O momento
que rasgo as verdades dentro de mim e as arrasto por entre as entranhas até que
elas não me pertençam mais.
Eu costumava amar o tilintar nas teclas da máquina de
escrever do seu escritório. Estar sentada naquela cadeira sem a urgência de
fazer parte do seu universo de palavras, pois o meu me bastava para todas as
histórias que eu precisava contar. Ouvir as máquinas frenéticas com dedos que
nunca erram enquanto eu, vagarosa, com erros que eram sorrisos e mudavam o rumo
da narração me provando que o acaso nada mais é do que uma coincidência.
Lembro das palavras presentes em cada momento que
trago feito bagagem nesse coração.
As placas do zoológico que me ensinavam sobre a vida que
estava separada de mim por grades. As onomatopeias no recanto das aves para que nos
matavam de rir. A primeira carta que recebi e que hoje, mesmo pós 20 anos,
ainda me arrancam lágrimas que escorrem pela bochecha de encontro ao sorriso
aberto. As viagens de ônibus em que eu te contava o que cada um dos Outdoors
estava expondo. As tardes no borboletário para entender que a existência é valiosa e
cheia de cor e forma e cheiro e tato.
Até quando as palavras se fizeram ausentes, elas diziam
coisas também. O silêncio é uma forma de se entregar os sentimentos, um dia
entendi. Quando se cala, de súbito, respira fundo você está me dizendo que não
pode ficar. E eu, que sempre me orgulhei de ser precavida do fim, nunca soube
como te dizer adeus e tilinto os dedos no teclado do computador para trazer à
tona às máquinas de escrever e quando falho em estar naquele momento, escolho o
silêncio que, bem, me diz que não pertenço ao passado. As palavras então me
esmigalham, te escrever me consome, porque eu tento me agarrar ao presente e
você não está aqui.
Na primeira vez que pensei em te escrever, entendi que havia
muita raiva dentro de mim para que eu te entregasse qualquer palavra que
pudesse me orgulhar. Hoje, eu te escrevo com as lágrimas que são a minha
entrega mais pura ao momento e declaro este texto como minha vitória sobre
você.
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