Confronto do dia

Esse é o momento.

Mais uma vez você me desestabiliza. Como consegue usar as minhas palavras - que sempre me foram escudo - como lanças que atravessam meu peito?
Estou entregue as lágrimas e ao silêncio que reflete a intimidade e compreensão que desenvolvemos ao longo dessa relação. Aprendi a agradecer a estes momentos que de súbito me fogem as palavras da boca, porque entendo que não preciso dizer para fora mas guardar para dentro todas as novas descobertas. E você entende que levo meu tempo para digerir suas frases articuladas e não me cobra a urgência que eu sempre me cobrei em estar pronta para a vida.
- A escolha do outro está aí também, porque você carrega o peso do mundo nas costas? – Você me questiona com aquela voz serena, mas sem piedade. Eu esperei por muito sua piedade como se assim eu pudesse me livrar do peso em meus ombros que me atrapalha de dormir à noite.
Venho tentando guardar todos os meus sonhos para compartilhar com você. Os traços, as cores, pessoas, muitas vezes me somem junto com a luz do dia e me frustro. É curiosa essa noção de realidade que soa como uma culpa. Eu, que sempre aprendi estar fadada ao passo que corro desesperada do destino, desisto. Desisto das relações nas quais preciso estar por inteira para existir e me dispo da posição de pilar e sustentação de tudo que me cerca.
Você não está predestinada a suprir cada espaço deixado pelo outro.
Eu já não sei quais palavras devo usar com você, por onde começar a te contar e descobrir quando desandou... o que?

Eu enxugo os olhos e questiono: E os espaços em mim?

Tenho andado nostálgica. Recolhida. Passeio pelos meus textos entre os anos e me pego investigando em quais palavras ainda me encontro e das quais me despi ao longo do caminho. É que tenho esse quê de cientista, sabe? De querer descobrir a coisa além da coisa, esmigalhar o sentimento até chegar no sentimento por trás das linhas e na pessoa que sou (ou era).

“Posso te ver semana que vem? Queria garantir que você está inteira.”

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