Do processo em me tornar vulnerável


Escrevo esse texto para quem?

Tenho andado nostálgica. Passeio pelos meus textos entre os anos e me pego investigando em quais palavras ainda me encontro e das quais me despi ao longo do caminho. É que tenho esse quê de cientista, sabe? De querer descobrir a coisa além da coisa, esmigalhar o sentimento até chegar no sentimento por trás das linhas e na pessoa que sou (ou era).

Nós, mulheres, aprendemos desde cedo sobre todas as coisas das quais não podemos ser, fazer, sentir, almejar. Meus joelhos ralados vira e mexe eram discussões: “como uma mocinha bonita assim vai usar saia com uma perna cheia de cicatriz? ”
Eu não entendia muito bem. Mas como menina, em algum momento da vida, eu aprendi que entrar na piscina estragava meu cabelo. Então quando eu decidia me molhar, ficava bem no cantinho vendo meus primos brincarem. Depois vieram as estrias e mais uma vez as conversas sobre um corpo que parecia público demais: “isso é genética do lado do pai. As tias de lá tem estrias feito cordas. Já falei que tem que usar muito hidratante. Pior que estria nem tratamento tem, mas tem um creme ótimo para usar quando ainda estão vermelhas. Ameniza muito. ”
Pronto.
Além de não molhar o cabelo, eu precisava achar um short que não fosse jeans, mas que fosse comprido para tampar as estrias, mas não comprido demais para eu parecer uma boba. 
Com uma família típica mineira que passava todas as férias que podia no Espirito Santo, eu comecei a detestar praias. Com idade já para alisar o cabelo, não molhá-lo tinha um novo motivo: “evita água do mar e piscina que a progressiva dura mais. “ Era muito caro alisar o cabelo. E dolorido também. Meu olho ardia, o couro cabeludo coçava e eu perdia um dia inteiro no salão. Eu odiava o salão.

Nessa lista, ainda criança, eu já odiava coisa demais: meu cabelo, minhas estrias, a praia, a piscina, o salão.

Comer sempre foi muito prazeroso. Minha avó materna sempre foi uma cozinheira de mão cheia, dona das melhores coxinhas, torta de frango com catupiry e dona de um dos motivos para o natal ser a minha época favorita do ano. Em algum momento da vida, ainda criança, eu deixei de ganhar uma Polly de natal para ganhar uma chapinha. Lá pros meus quinze (talvez?) minha maior preocupação era não ficar com o corpo parecido com o de fulano: precisa começar a maneirar ein? Daqui a pouco seu corpo está igual ao da sua tia.
Vinda de uma família de pessoas de biótipo magro que faziam das refeições e encontros uma festa, me sobrou ter muita força de vontade pra não comer e ter a barriga igual a de nem sei mais quem.

Praia e piscina agora, só com saída de praia que fosse um vestido e tampasse minhas estrias e barriga e que tivesse tomada para ligar a chapinha. Porque eu precisei tirar o short em algum momento quando me falaram que eu precisava pegar um sol, porque marca de sol com short era feio demais.

Nesse processo todo ir à praia, clube, sítio, piscina se tornou uma tarefa tão copiosa de ser realizada que eu preferia não fazer.

O arquétipo da mulher perfeita foi construído ao longo de muitos anos, com uma perda irreparável de uma infância.

Chego no hoje.

Eu li que o amor próprio é o caminho para se aprender a amar aos outros. Amar ao outro é muito importante, eu sei. Entretanto penso que o amor próprio é o caminho para se acolher e encontrar mais amor próprio.
Quando eu decidi que deixaria meu cabelo crescer naturalmente, eu fiz um trato comigo mesma: estava tudo bem não me reconhecer naquele momento. Foram três tentativas, alguns comentários doloridos até conseguir me olhar na imagem de quem eu era, com amor.

Eu precisei viver por mais de 20 anos achando que eu detestava o mar, por detestar a mim mesma. A vulnerabilidade na qual eu me colocava neste lugar era tão constrangedora que me era preferível não estar lá. Em outubro do ano passado eu decidi viajar sozinha e minha escolha foi o litoral. Eu fiz um novo trato comigo mesma: você não está indo para mudar de ideia. Está indo para se permitir. Está tudo bem não gostar de praia.

Final da história: Eu amo ir à praia. Eu amo a brisa bagunçando meu cabelo. Eu amo pegar sol deitada na areia de biquíni. Eu realmente detesto como a areia está em tudo e está tudo bem, também. Às vezes a umidade na pele também incomodava um pouco.

Então, entre erros e acertos, passos e precipícios tenho descoberto o mais bonito do amor próprio: não se cobrar ser, estar, agir. Mas se permitir, se entregar, mudar de ideia, entender que as vezes não vai estar tudo bem e que está tudo bem.

Alguns dias acordo me amando menos. Recolhida em mim. Em alguns outros sou festiva em ser quem eu sou.

O amor próprio começou em reconhecer quais as barreiras foram colocadas para mim e entender que ser quem eu sou é uma escolha e não é ser um corpo público, por ser mulher. Entender que muitas vezes passamos parte da vida aprendendo a odiar o corpo que nos carrega e nos leva a conquistas e que faz parte do ser único que somos.

Paro por aqui. Estas são algumas das coisas que ainda não consigo te dizer. O silêncio as vezes se faz necessário para que se consiga dizer algo.  

Nenhum comentário:

Postar um comentário

felicidade sóbria

fazia tempo que não sentia os pensamentos correrem livres entre meus olhos, por dentro de minhas narinas, passando pela minha boca, atravess...