Belo Horizonte, 08 de julho do
ano que não vamos contabilizar.
Com regularidade penso sobre o
que resiste ao fim. Como se o fim fosse este grande evento catastrófico que
deixa pelas avenidas os postes de luz no chão e carros capotados. No dia 30 de
setembro às 19:13, me encontrei nas tuas palavras e por um ínfimo de instante
achei que te pertenceria para sempre. O que é o para sempre se não o segundo do
agora?
Você me diz que não sei mais
como ouvir, que procuro por atenção e que me desfaço dos afetos. Mas a verdade
é que eu desaprendi a falar e você nunca foi bom com o tato. Você me coloca
como agente das minhas escolhas e em meus ombros estão as consequências. Quando
invertemos este papel em que eu te imploro pelo acaso?
Deixo as janelas abertas, como
você um dia pediu. Como se assim a esperança que perdi aos longos dos anos
pudesse entrar de súbito e me roubar um sorriso, feito beija-flor. Não há em
mim sequer um vaso com água e açúcar e eu espero ociosa pelo sinal divino das grandes
mudanças. O fogo no céu ou a cratera no mar que faça toda essa fé que trago
arrastada valer a pena. O acreditar me mantém lúcida, esta é a característica imutável
que carrego em mim. Você não reconheceria, se perdeu há muito nesse ceticismo
camuflado na fumaça do teu cigarro sempre aceso.
Eu choro muito e você diz que
tenho tanta lágrima pois escrevo. Cada lágrima é uma história em si, você
insiste. Já não ouço suas banalidades, farta de todo contato humano, perco o
foco com frequência. Tudo é estranheza
demais e venho me sentindo culpada pelo mundo. Como ousei ser feliz? Quebrei a
linha tempo do mundo e trouxe o caos por não me caber a felicidade. Nesta vida
vim para ser escritora, eu sei.
Não me pergunte do futuro,
darlin’, você sabe bem que me desato do tempo contado.
Eu me distancio de você. Dos
lugares, das pessoas, discos, pensamentos.
Você ri. Me acha tola demais e
eu preciso concordar. Se esta é uma das muitas vidas que acredito viver, será
que já usei a minha sorte de principiante? O mundo insiste em girar e não
ficamos enjoados. O mundo move quando movo. Dentro daquele ônibus apressado,
com árvores desbotadas passando pelas janelas sujas e ainda sim o que embrulha
o estômago é ver como certas pessoas insistem em se manter ferrenhas em seus erros.
Voltamos aquela palavra que decidimos, juntos, abandonar: o orgulho.
Você já não se assusta em como
minhas cartas a você me levam sempre ao ponto de partida – ou de chegada. Eu já
não olho para trás, entende? Se o fim é esta catástrofe, sigo construindo o início.
É brega, eu sei. Cada palavra piegas que insisto em te escrever. É que perdi
todas as nossas cartas. Meu peixe beta morreu e sua vida andou enquanto a minha
foi embora dentro daquele transporte lotado.
Talvez nossa grande sorte seja
a perda do que fomos naqueles versos. Talvez nossas palavras envelheceriam mal
demais. Tudo em mim foi intenso em ser sentido, mesmo que tardio e hoje ando
apática. Talvez se encontrar aquelas cartas, descubra que não sou mais a quem deveria
enviar correspondência?
Corro pela rua pra sentir o vento que o
amanhecer não me deu. Eu preciso me encontrar nas suas frases manchadas de
esperança, por que eu sei que você não desistiu de mim. Me perdoe, me perdoe
por tentar te fazer duvidar tanto quanto eu duvido. Eu realmente não deveria
querer isso de você.
Cigarros e solidão, talvez
estejamos a nos reconhecer mais uma vez naquilo que nos tornamos ao longo de todos
esses anos. Sem delongas em conselhos banais sobre o desespero do cotidiano.
Fique vivo e se der, esteja bem. Que sejamos um susto à sobrevivência.
Com qualquer sentimento que nos caiba sentir,
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