O sacrário


Eu não sei mais orar. É sem muito sentimentalismo que digo.
Eu preciso hoje das palavras, com tamanha urgência que elas se atropelam dentro de mim e nada sai senão lágrimas. Me questiono se não foi o eclipse que trouxe às minhas pupilas há muito não dilatadas a sensibilidade à flor da pele.
Me encantam os detalhes da vida como a cidade passando pela janela do ônibus com árvores e prédios em movimento na fugacidade de não se chegar a lugar algum. Eu, que nunca soube ter norte, vejo a capital apressada passar pelos meus olhos como quem está em constante atraso.
Queria estar em paz como grande parte do mundo está, mas não consigo naturalizar o cenário vivido no qual não posso abraçar para ter conforto. Não consigo respirar aliviada por um minuto sabendo que eu não tenho a perspectiva de um futuro diferente. Eu estou muitas vezes paralisada. Não me diga que devo fazer o que está ao meu alcance, porque a solução parece sempre estar no inalcançável e eu sempre fui uma pessoa resolutiva. Entende?
Quando as dores no ombro vão cessar e eu vou dormir sem acordar cansada de todos os monstros que me visitam em sonho? Ando precisada de chorar, mas até para isso pareço estar exausta demais.
O mundo não vale meu esforço, mas eu não consigo sentar em minha cadeira e viver como se eu não precisasse me esforçar.
A poesia não me comporta mais. É preciso transformar a tristeza em bela para que esta seja uma boa poesia. Minha tristeza tem se dedicado em ser triste e só. Tenho, aos poucos, destruído a imagem que tenho de você e aceitado a humanidade que te cerca. Assim, aceito a humanidade que carrego em mim. Você não entende meu ceticismo e eu desisti da sua crença. O pacto silencioso do respeito às vezes pesa o pulmão porque eu precisava te dizer tanta coisa que simplesmente não deixo sair. Eu precisava que você me visse como eu sou. Assim como vejo quem você é.
De todas as orações que eu posso fazer, te peço: não me deixe apática. Me deixe com todo o sentimento a flor da pele mesmo que eu não saiba o que fazer com tudo que sinto, não me faça parar de importar.
Eu tenho questionado se ando enlouquecendo com o passar dos dias ou se o mundo é quem enlouquece e eu tenho ficado para trás.
Tenho pensado muito sobre o que resiste ao fim. Marco me diz que aceitar é parte do processo, feito abrir janelas. Eu me contraio em dor à espera de uma libertação.
Você me entrega com tal desdém a verdade por trás de todo ser humano: o encontro com o outro, é o encontro consigo também.
Poucas palavras na vida me assustaram tanto, preciso te confessar.

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