Telegrama - Dia 19

25 de Julho de 2000 e meteoro

Carlos,
Desde a última vez que te escrevi, no dia vinte e nove de julho de dois mil e dezessete, fomos tantos outros que tive medo de te colocar no papel agora, três anos depois.
Você tentava me convencer, com teus olhos doces, naquela poltrona surrada ao lado da janela, que todos éramos feitos para o amor. Enquanto, eu, com esta alma sepsia, tentava te mostrar a beleza na solidão. Fazem quase três anos e eu precisei te escrever hoje. É que pensei em você o dia inteiro, em quão doloroso foi descobrir lá atrás que não havia mais tempo na vida para cafés e livros. Hoje estou aqui, vendo o tempo correr vagaroso passando cafés novos com uma frequência na qual você me puxaria a orelha e eu sorriria sincera porque eu sempre amei o seu cuidado. Tuas mãos quentes, teus olhos bondosos.
Você, Carlos, me deu o sopro quando me fez descobrir humana. Quando te confessei atropelar a vida e matar dinossauros antes que venham meteoros por puro egoísmo de não querer a perda. Fazem três anos e sempre me volto a você quando preciso dessa esperança boba. Da tua janela, somos estáticos. Os astros giram em torno de nós, mesmo que sem querer, nessa dança bem ensaiada.
E se outro nome o amor tiver?
Nós somos este evento astronômico, mas ninguém parece se importar. Do início ao fim. Somos essa explosão de brilho infinito que dura segundos. Ressoamos nossas memórias pelo espaço-tempo. Esta é a nossa marca no mundo. O início e o fim não podem ser delimitados, pois são um só.
A verdade é que precisamos olhar longe para enxergar a beleza que mora no outro e em nós. Construímos lunetas, inventamos telescópios para descobrir o universo e apreciar o brilho das estrelas. As pessoas gostam é do passado, é a única conclusão que posso te dar neste momento. De olhar o brilho da estrela morta assim como nomeiam grande e atemporal o artista depois de morto. É por isso que insisto: artista é estrela. As estrelas vivas não brilham como eles querem, entende?
Eu sei, você virá com seu otimismo pungente. Me cobrirá a testa com um beijo e eu entenderei. Entenderei porque sempre preciso ir embora.
“Já passamos por tanta coisa, darlin’. E nós sempre sobrevivemos”
São tempos novos. Já não me importa a beleza nos meus textos quando, enfim, enxergo a beleza no que acontece em mim.
Nobody but me. 
Não sua, Tereza

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