BH, 18.2.21

Das estranhezas que te ler me causam, já me era costume. Agora, me encontrar entre as cartas endereçadas a você... bem, esta é novidade. É que o amor para você sempre foi algo brando, como destas medicações que são feitas para circular por mais tempo pelo corpo agindo vagarosamente. Para mim, o amor é feroz até deixar de ser.
Aprendi a proferir perguntas a mim mesma toda vez que te leio na intenção de compreender o alvoroço que me causa. Os questionamentos carrego todos em mim, me faltam as respostas para que eu possa descansar.
Troquei o colchão da minha cama com a suspeita que me causavam fortes dores lombares. De antemão informo que muito não funcionou já que toda a noite vou dormir com todas essas perguntas embaraçadas em mim.
Por um ínfimo instante eu desejei você viva, de egoísta que sou. Este egoísmo pungente que me doí muito ser, mas que é necessário para que eu viva também. Te desejei viva para quê? Para que eu pudesse dizer que compartilhamos alguns anos de vida, para sonhar em vislumbrar a amabilidade endurecida em seus olhos. Então, eu me orgulharia de te ver e em seguida me revoltaria com o mundo por você ter partido antes de mim. E, veja bem, esta é uma revolta que hoje não carrego mesmo que você já não se faça presente.
Dentre os pontos em desalinho das nossas crenças está sua falta de fé em deus e é por isso que a vida por si só para você era um milagre. Enquanto a mim a vida parecia um culto monótono de domingo com roupas bem passadas.
Não digo que sinto muito, pois você se moldou nesta vida vivida e apesar da descrença em você mesma se tornou o que mais bonito pode vir um ser humano a ser: imortal em suas palavras.

Pois eu espero que em seu leito, um ser humano tenha pegado em sua mão. Eu ainda te descubro entre versos trôpegos e talvez por isso a revolta em não te ter aqui seja tardia.

Eu te exalto por seu desassossego de alma que é o que chacoalha o mundo até hoje.


Te guardo perto do coração selvagem.

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