Padecer

Desde criança aprendi sobre os fins e o desapego. A efemeridade das casas, das escolas, dos amigos. Sem me esforçar para transformar um espaço de paredes em lar, para evitar que fosse dolorosa a partida. Como uma lagarta que constrói um casulo, costurei em torno de mim essa malha fina e forte e dele nunca saí. Ainda tenho tentado entender quais as palavras que precisam ser escritas. Afrontar os sentimentos adormecidos e quebrar barreiras nunca foi o meu dom, porque aprendi cedo demais que nada na vida vale o esforço da permanência. Antes do começo, existe um fim. Mas quando tudo que me cerca são os finais, é árduo amar os começos.

Me recuso aos enlaces do coração, não desfruto do calor dos apegos por um cansaço quase de nascença. A vida é caminhar sozinha e os encontros são fugazes.  Não suporto mais lidar com as perdas. Talvez seja por isso que encontre no luto este lugar da escrita, na urgência em não sofrer, não vivi e não vivendo, apodreci amores como frutas que não se desprendem da árvore ao amadurecer.

Reaprender é, acima de tudo, abandonar o orgulho e se esforçar para abrir mão de toda a construção entorno daquilo. Então me apego aos detalhes da vida, como os prismas pendurados em uma janela que me fazem enxergar as cores dançantes refletidas nos destroços de tantos desmoronamentos.

Ninguém nunca me disse que retirar cada tijolo disforme destes monumentos construídos que são nossas relações fosse doer tanto. Mas eu conto a você.

Existem em meus dedos palavras que não dormem. Palavras que deveriam sair por entre os dentes encardidos para entregar sentimentos. Mas é que eu vivi uma vida economizando afetos para me proteger. Aprendi a me proteger por sentir demais.  

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