Dedos aflitos. Havia tanto a ser sentindo e mastigado dentro
de mim. É que eu nunca sei o que fazer com as palavras que ruminam. Queria ter
falado sobre as inúmeras verdades que me assolam há alguns dias, mas é que hoje
acordei cansada, com a mandíbula travada e ombros enrijecidos. Desnorteada e
desconexa do calendário, misturo compromissos, atropelo dias e martelo as
perdas em minha cabeça como penitência. Os pensamentos
nunca me deixam esquecer um erro sequer, seja de dois mil e oito, a suspensão
no jardim de infância ou aquele único encontro em que só hoje entendo que eu
deveria ter me doado mais. Eu visito o passado com uma frequência que não
deveria ser possível. Mais que isso, eu me cobro ser no passado a pessoa que
sou hoje, como se isso pudesse me salvar do futuro.
É que o futuro e o pretérito são essas zonas de conforto
onde tateio as verdades; seja em conhecê-las ou em planejá-las. O presente é
onde o desconhecido habita e, mais que isso, é no presente que reside o medo de
viver.
Eu sei, muito mudou. Dentro e fora de mim, as metamorfoses estão catalisadas.
Passaram trezentos e sessenta e cinco dias de mudanças constantes e forjadas nas
intempéries. Me questiono se eu sou quem eu sempre quis ser. Talvez esta seja
minha dificuldade em acolher o diferente. O que precisei deixar pelo caminho?
Esta noite sonhei que perdia um sapato ao correr
atravessando avenidas. A vida passa tão apressada ou somos nós que não respiramos
o momento? Precisei perder o sapato para então parar, voltar alguns passos e
perceber como o mundo em minha volta era novo.
Eu ainda não sei o que fazer com esses relicários que me são
constantemente entregues, mas enxergo as virgulas voltando aos meus textos como
quem reaprende a usar pulmões.
Como você pode saber as respostas para as perguntas que
ainda não trouxe a superfície?
O medo foi quem direcionou meus passos e é preciso perder o
sapato ao cruzar a faixa de pedestres aos tropeços para me arriscar e perceber
que o mundo que me cerca é bom.
De tudo que mudou, apenas restou o saber: eu sou quem eu nunca quis ser.
Graças a Deus.
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