Abro espaço entre as palavras e nelas me acolho. Já não compreendo muito bem o que precisa ser escrito, mas de alguma forma as orações habitam em mim. Há dias me movimento, ocupando cada pedaço de tempo que possuo na tentativa de que se passe essa fumaça que me ronda. Mas não passa. Talvez, apesar de todos os meses-dias-horas que tenho ferrenhamente falado sobre o sentir, eu tenha falhado mais uma vez e tardia que sempre fui, não deixo espaço para os sentimentos que chegam como um trem dilacerando meu coração. As lágrimas sempre hão de cair. Teimosas que são.
Eu tenho perdido a vontade de
escrever e o papel vez ou outra ganha algumas palavras rabiscadas.
Você me disse que a esperança era
uma afronta a esse mundo massificado, mas tem sido cada dia mais difícil me
rebelar em silêncio e reverberar palavras de um futuro quando eu não consigo enxerga-lo
com clareza.
Tenho tentado mover os poucos
lugares que ainda são possíveis de movimentar para enxergar a mudança que eu
tento me agarrar a cada dia, mas de mãos calejadas de tanto me pendurar a este
fio invisível, já não sei o que fazer.
Comecei um texto sobre o amor que
ficou pelo caminho, como tantos outros aos quais me causam repulsa por sua
estética crua e sem performance. Parece injusto não ser somente gratidão neste
instante, em que tudo passou, mas algo reverbera tão visceral dentro de mim.
Sinto meus lábios tremerem,
tentando conter esse trem e meu coração que pulsa em uma velocidade sem
compasso.
Tenho sonhado muito. Me acolhido pouco. Tentado me agarrar
ao que há de belo e não banal no cotidiano. Dando graças aos céus por cada novo
dia ser uma oportunidade de um dia melhor.
Venho tentando falar, mas as vezes é difícil ser ouvida. Qual
é o equilíbrio da balança entre se doar e receber?
Clarice escrevia como se fosse para salvar a vida de alguém.
Engulo suas palavras como medicina. A dor é pedagógica e eu sigo aprendendo
tudo aquilo que quero ser e tudo aquilo que preciso deixar ir, mesmo que estes
limites se misturem algumas vezes.
É que eu ainda não aprendi como se chora sem me desculpar
pelas lágrimas. Ainda não.
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