felicidade sóbria

fazia tempo que não sentia os pensamentos correrem livres entre meus olhos, por dentro de minhas narinas, passando pela minha boca, atravessando meus ouvidos e escorregando na minha lingua.

que falta fazia não temer meus pensamentos!

percebi que, ainda durante o banho, chamei isso de felicidade sem euforia. Eu me reconhecia feliz de uma felicidade já conhecida e ainda sim tão nova a ponto de me causar estranheza. 

me vi em um dilema entre terminar aquele banho que desejei durante todo o dia ou sair ainda ensaboada para escrever sobre a felicidade - que talvez fosse clandestina para Clarice.

terminei meu banho, na certeza de que essas palavras eram tão minhas que jamais as perderia de mim - ousadia essa que pratico quando tenho muita fé na vida e no mundo - mesmo sabendo que já perdi palavras que foram mais breves que amores de carnanal. 

que agonia a felicidade traz.

terminei meu banho, organizei algumas coisas que ainda estavam espalhadas pela casa após a viagem, me recusei a lavar as vasilhas do almoço que estavam na pia e me recusei a escrever para que o outro lesse. Depois de todo este des-ritual, deitei em minha cama e abri meu computador para te contar que sim não lembro mais das palavras que tinha durante o banho, mas ganhei outras palavras tão melhores que aquelas que a euforia veio para contar que senti uma felicidade sóbria quando me dei conta que meus pensamentos corriam soltos pela minha cabeça.

ufa.

falei mais cedo com uma amiga uma coisa bem bonita assim sobre o que eu estou vivendo: eu não quero mais ter medo de me orgulhar, mesmo quando as coisas desmoronarem. Porque eu aprendi a desejar e correr de braços abertos aos meus sonhos. Me importa o resultado sim, porque eu quero concretizar. Mas me importa mais reconhecer que eu estou consumando o desejo que habita em mim, naquilo que depende de mim.

que bonito isso. almejar. criar maneiras. correr atrás e, se ainda der sorte, ser pega desprevinida durante o banho por uma felicidade sóbria.

Concretizar

 2025 - um ano 9.

Finalizar é o verbo que tem sido amplamente utilizado. Eu ainda não sei muito bem o que dizer do ano prestes a findar. Quando olho em retrospecto, sinto um misto de emoções que vão da fotografia que tirei da cadeira branca de plástico jogada em um córrego com a música do Bad Bunny - DTMF à musica de Dona Ivone Lara que canta de maneira alegre: se o caminho é meu, deixa eu caminhar, deixa eu.

É que quando penso em 2025, finalizar não é bem a palavra porque dá um sentido de deixar para trás, para sempre. Se pudesse verbear o ano, seria concretizar.

E concretizar também é um pouco de luto, por mais que o anseio seja de concretude. Porque é perder um propósito, uma meta e se encontrar em um lugar dentro de si que falta sentido e se acolher enquanto esse sentido não existir e se lembrar que viver já é muita coisa.

Durante esse ano vivi alguns lutos: emocionais, de sonhos, de padrões. E nessa espiral da vida vivi alguns começos.

Penso enquanto escrevo: é vivendo que se muda a forma de lidar com aquilo que se vive.

O ano ensinou a intencionar o presente e me equilibrar entre o sonhar e o viver.

Amar o caos, os encontros, as músicas, dançar e nessa dança encontrar outros corpos suados que parecem compartilhar a mesma felicidadee em estar ali. Mas também amar o silêncio, o vazio, o vento que leva a casa ao chão, que chacoalha as plantas. 

Aprender a calar sobre aquilo que gesto, mas a compartilhar e celebrar as realizações. A adoçar as palavras sem perder a firmeza dos lábios. Criar corpo e cabeça para ter segurança de si.

É sobre tomar as rédeas do meu caminho.

Rédeas sem cansar os cavalos.

Rédeas sem me conduzir ao precipício.

Rédeas sem andar em círculos.

Condução é constância.

Sonhar é apostar que existem outras coisas no mundo para mim. 

A colheita é o que concretiza a plantação.

Será a transformação a única coisa imutável da vida?

pachakuti - o casulo do mundo*

Gosto de pensar na lagarta, fechada em seu casulo. Apesar de, particularmente, não gostar da metáfora da borboleta para as mudanças porque acredito que grande parte das mudanças não seja sobre uma estreia no mundo com asas e cores. Acredito que elas sejam feito cobras rastejantes que trocam de pele quando a anterior já não lhe cabem todos os órgãos, deixando sinais somente para os olhos atentos ao caminho e que revelam: ali já passou uma serpente que nunca mais passará.

Volto à lagarta fechada em seu casulo. Imagino-a no silêncio de seu interior, ouvindo o mundo lá fora: carros, buzinas, pássaros procurando parceiras enquanto a lagarta fica no seu pequeno espaço em sua própria companhia. 

Imagino se ela se arrepende de estar perdendo a vida acontecendo lá fora. Se ela se questiona sobre a decisão tomada de tecer um casulo em torno de si, com medo de não existir mais o mundo que ela um dia conheceu; com medo da solidão. Se não cogita permanecer ali para sempre, enrolada em si mesma, apegada àquilo que conhece tão bem.

Porque o conhecido, mesmo que estreito, sempre parece mais seguro do que o salto para o invisível.

Penso na coragem que reside na paciência.
Penso em quando ela olha em torno de si e entende que aquele é o momento de deixar, para trás, quem um dia ela foi. Então pulsa nela algo visceral; uma urgência que não pede licença, apenas tece os fios do futuro. No fundo, a intuição sustenta a coragem. O casulo é passagem, nunca morada.

Ao se romper, não é somente um novo corpo que se revela, há também um novo mundo junto à mudança.

No fundo, dentre tantas transformações existe uma certeza: a borboleta não nega a lagarta que um dia foi e carrega em si todas as marcas e momentos que as trouxeram até ali.

Então, depois do silêncio, da coragem, da intuição, da aceitação, compreende-se que, sem o silêncio, a coragem, a intuição e a aceitação, a lagarta não descobriria o céu e que se permitir transformar era um convite a alçar voo e tocar o vento.

Gosto de pensar também que dentro de cada pessoa existe uma bússola que nos move em direção à vida que é nossa. Em um mundo acelerado tantas vezes é dolorido aceitar o processo de casulo e uma vez dentro dele hesitamos diante daquilo que nos chama para fora neste novo mundo e sendo esta nova pessoa que ainda não conhecemos. 

A borboleta só existe porque a lagarta se permitiu morrer um pouco para renascer em outra forma. É um ato de confiança: abrir mão daquilo que se conhece para abraçar o que ainda é invisível. 

O momento em que tudo parece estremecer e se desfazer, na verdade, está apenas se preparando para um novo nascer.

*"Pachacuti" refere-se ao conceito quíchua "Pachakuti" (ou Pacha Kutiq), que significa "aquele que muda a Terra" ou "reformador da Terra", e representa uma renovação ou um cataclismo que reestrutura o tempo, o espaço e a sociedade.

eclipse de mim: quando o futuro sobrepõe o presente.

 tudo hoje me levou a revisitar memórias, sonhos, desejos, medos, perdas, saudades. Daqui debaixo, do fundo de mim, passo em frente a cada coisa que estou deixando pelo caminho. Ouvi uma frase durante um vídeo que contava sobre os aspectos astrológicos do eclipse que ocorreu hoje - lua cheia em peixes - que dizia que a gente sofre pra desapegar até do que a gente não quer mais. Penso quantas vezes enrolei para descer com o lixo de casa por pura preguiça do caminho até a lixeira ou esperando acumular mais coisas - mesmo que fique muito pesado e difícil de ser carregado - para fazer uma viagem só. Ri enquanto pensava nas tantas vezes que carrego por ai verdades sobre mim que não me cabem mais pelo simples medo de não saber o que fazer com as mãos vazias e pelo desespero de não saber como serei reconhecida sem aquilo que eu achava que me definia como eu. 

Recebi um carinho da vida em forma de mensagem, com uma música e um texto que tinha uma frase assim:  "A necessidade de sonhar" e que me contava de um podcast que havia acabado de ouvir, também. Junto da mensagem veio uma música "A balada de Tim Bernardes" que já ouvi algumas vezes na minha vida, mas que naquele momento ela teve outra atenção.

No meio do violão dele, das minhas lágrimas, dos trechos do podcast que ressoaram em mim me veio a lembrança da minha avó tão nítida, com seu cheiro de tempero, andando pela cozinha até o quintal pra pegar chá de hortelã pra eu levar pra casa e cuidar do meu estômago. 

Lembrei do ora-pro-nóbis aqui de casa que passou os últimos três meses seco, sem folhas, sem flores, sem qualquer sinal de vida e que agora está florido, ramificando e crescendo.

Lembrei quantas vezes eu cheguei ao fim e fiz deles recomeço e que neste momento não haveria de ser diferente.

Lembrei da minha tia que se perdeu no horário conversando com a vizinha e não fez o almoço em um dia de prova importante para mim e para meu primo. Então, foi para a cozinha e preparou o que de mais rápido poderia preparar: um macarrão com molho de tomate. Quando meu primo e eu entramos no ônibus vimos nosso rosto manchado de colorau. Neste dia, aflitos sem conseguir tirar a mancha vermelha do rosto, rimos muito; em pé dentro de um ônibus lotado. E essa ainda é uma das minhas memórias favoritas sobre ela. 

Lembrei de quando decidi me mudar de cidade com tanto medo dentro de mim, mas também tanta certeza de que este era o passo que eu precisava dar. Da despedida aos prantos na porta de casa, abraçando minha mãe sem a menor ideia de como seriam os dias a partir daquele momento. de como uma vida cabia dentro de um carro quatro portas e uma viagem de 6 horas, da sensação de olhar o apartamento vazio com o desejo no peito de transformar ele em lar.

Talvez essa seja mais uma de minhas despedidas. Dizem que é disso que eclipses lunares são feitos. Ainda não descobri se é uma despedida de mim, da minha casa, do meu sonho ou de, na verdade, um pouco de tudo.

Revelação do baralho cigano

Meu bem,

ja visse o mar ser toda vida calmo e manso? toda vida furioso e destruidor? toda vida turvo ou toda vida límpido? o mar é isso. ora é, ora não é. pois não existe estática naquilo que é fluido. 

já visse rio toda vida ser volumoso? toda vida ser correnteza? toda vida ser só nascente fina entre as pedras? tem rio que é mar de distância entre as margens e, ainda sim, seca quando é necessário secar.

já visse a chuva cair só em tempestade? Só em garoa fina? E ventar só furacões ou parar o ar nos pulmões?

viver é isso. se movimentar com aquilo que o momento pede. em cada volta do círculo há de se passar pelo mesmo lugar e ainda sim ser tudo diferente.

não tenha culpa, nem medo de viver bravamente. de odiar aquilo que te causa ódio e de amar aquilo que lhe causa amor. não tenha pressa em se desfazer da raiva, da mágoa, nem da felicidade, das sensações de carinho pelo corpo.

tem dias que serão de mar manso em que a chuva vai cair feroz e os ventos sacudirão as velas e você se abrigará na foz de um rio ou na lama de um mangue onde a vida faz parecer ser mais vagarosa e menos atingida pela pressa humana.

não se sinta receosa de gostar da sensação de liberdade quando estiver nos lugares que sonhou estar e não se prenda ao sonho depois de realizado. deixe ir aquilo que não te ajuda a completar o ciclo. sonho não foi feito pra ser prisão. 

as vezes será preciso atravessar as águas de uma cachoeira para entrar fundo na terra e sentir o eco, o frio, o úmido das paredes e ouvir alto o coração - primeiro - bater agitado para então ir se acalmando.

Veja bem, a gente se acostuma com a paz.

o descanso também é ferramenta. só se sonha pra dentro, para depois realizar para fora. já visse palavra não ser ação? A árvore faz sombra porque sentir o sol é importante. Aquilo que parece estático se movimenta.

Veja bem, desejar já é parte do realizar.

e ainda sim quando parecer impossível de se abraçar, de chorar, de sorrir, de querer além, de descansar, de dormir, de navegar pelas águas de dentro diga em voz alta que você não precisa se abraçar, chorar, sorrir, querer além, descansar, dormir. converse com a atenção de quem conversa com uma amiga e se diga o que quer que eu esteja sentindo está tudo bem sentir.

ainda no silêncio se faça um chá ou um café ou abra uma cerveja e respire fundo para lembrar que dentro de você correm rios que deságuam cachoeiras e folhas que balançam com os ventos. já visse o formato das veias e os alvéolos no pulmão? você se sente distante, mas faz parte do padrão que a natureza traz, o equilíbrio nos movimentos e não a perfeição.

Veja bem, folha quando cai no inverno parece morte, mas é proteção.

aprenda que a vida pode ser a cobra mordendo seu rabo no infinito ♾️

vícios

 Escrever equivale a fumar. A sensação da tragada e de escrever uma frase. O alívio e a vontade de mais. O desespero para aliviar qualquer sentimento que esteja difícil demais de sentir. 

Desde que permiti que outras pessoas me leiam, escrevo menos e sinto que escrevo mais superficial.

Quanta coragem precisa para sentir, falar e escrever? Para deixar doer.

Ando recordando muito. Dos dias infantis, das gargalhas, de quantas vezes precisei cuidar porque sabia que não tinha ninguém cuidando dali. Me permitindo desconhecer um pouquinho de mim, com consciência. Abraçando as incertezas e lidando com as perdas sem antecipá-las. Vez ou outra o perdão surge misturado com outras coisas, como um gosto de terra misturado com o ferro fundido do sangue. é meu e não é. é de dentro e de fora. faz parte de mim ainda que seja do outro. é engraçado como tenho sonhado tanto. e desses, alguns realizados. deixado a criatividade, o cansaço, as inseguranças, a intuição fazerem seu papel em mim.

sonho. me sento a beira do precipício que sou. a consciência. e dele vejo o fundo, vejo o céu da minha cabeça, sinto as águas dos seus sentimentos. ora boio, ora mergulho. ora piso na terra da minha cabeça para enraizar. então encaro o abismo do céu da noite em minha cabeça. percebo que nunca amanhece aqui. grito para o fundo das sombras do abismo, mas não há eco aqui porque eu preencho o espaço.

eu quero ser boa, mesmo que isso implique em as vezes ser ruim. e eu quero ser amada, mesmo que isso implique em as vezes desamor. eu quero perdoar, mesmo que isso implique em as vezes guardar rancor.

acima de tudo quero escrever, mesmo que isso implique em as vezes me exaurir as palavras. e quando exauri-las eu quero descansar, mesmo que isso implique sonhar que me sento a beira do precipício que sou.

 O ímpeto em fazer algo com aquilo que sinto. por isso escrevo. pela falsa sensação de ter o poder, o controle sobre os passos que dou, ainda que trôpegos. 

Li algo e meus olhos encheram de lágrimas e o peito deu um aperto fundo porque eu senti muito. Quis escrever sobre, mas ao invés disso me enganei escrevendo sobre a vontade de escrever.

Aprendo a não ceder à vontade do controle. Respiro bem profundo até quase colar a órgão com órgão. Minha cabeça pensa num abdômen a vácuo e sorrio.

Sentir já é muita coisa. Dar tempo ao tempo das coisas.

O sonho é ferramenta.

Gostaria de fechar mais meus olhos e respirar fundo a ponto de sentir meus ossos, as costelas, contra meus órgãos vivíssimos dentro de mim.
É a primeira vez que me recordo de não estar sendo hipervigilante com minhas ações e sentimentos.
De quantas primeiras vezes há de se fazer uma memória?
Não estou hipervigilante barra aflita barra desesperada com os efeitos do meu viver.
Tenho vivido. Aos trancos e barrancos, mas tenho vivido.
Sem -tanto- medo de errar, mesmo que errando ainda sim.
Me soa uma vida com um quê de adolescência barra inconsequência este jeito de descrever a vida que tenho levado e pode ser que não tenhamos outro jeito de encarar o bancar o que nos consome por dentro, a parte de nós que nos maquina a vida pulsante.
A linha tênue é que há de se jogar na vida disposto a bancar e quando se é adulta barra madura barra vivida a gente consegue enxergar melhor o preço das coisas.
Quando criança, recebo o troco e ele me é o suficiente para ser feliz. Entretanto peço o patins lançamento caríssimo de presente. É que não sei o preço das coisas. Sei o valor da felicidade e então os coloco na mesma prateleira. 
Quando falo sobre o adultecer, encaro de uma perspectiva dura da vida: ela é o que ela é. Não que me falte a vontade de mudá-la, não que não me zangue com o imposto e tantas vezes me canse.
Mas sei que uma geladeira e um enfeite de mesa me custam coisas diferentes.
Quando trago esta lógica mercantil ao desejo estou dizendo mesmo sobre a regência do mundo. Para tudo há de se ter uma troca.
Perdem-se as folhas para enraizar melhor.
Volto ao desejo. Quanto custa bancar o desejo? O quanto me vale este desejo?
Não se faz necessário bancar tudo para viver, mas se faz necessário viver para bancar.

Sinto falta da escrita. Me percebo nova. Escrevendo de um jeito dura contra o teclado, como quem diz sobre uma tese importante enquanto digo sobre aquilo que eu realmente não sei dizer.
Li que escrever é sentenciar.
Escrever é elaborar os passos de dentro para alumiar os passos de fora.
Desarmo os juízes de mim. É tempo de se acender uma vela no peito. 

tenho amado até as redundâncias que permeiam meus textos.

Sinto falta do que vivi, mas isso não me impede de caminhar. 

Fazer de todos os bons momentos catalisadores do futuro e não amarras ao passado.

Aprendo a fluir com o tempo, com o rio, a ser infinita como o encontro de luz e água. 

Os últimos meses tem sido bagunçados.
Bagunçados de propósito. 

(dê o sentido que melhor lhe servir na frase acima)

Ando decidida. Pés firmes sobre a terra que segue girando. Não mais deixarei que a vida faça sentido só pelos traumas. Agarro todas as banalidades que me arrancam gargalhadas. Que elas me sejam mais que meus medos. Que elas que gritem quem estou. Me recuso a encontrar sentido só pela dor. 

Nada que vivi vai deixar de ser meu, mas me esforço para que isto não seja tudo. Carrego lutos, carrego decepções, carrego uma sociedade disfuncional e isso não posso mudar. Como não posso impedir de viver tantos outros percalços que me virão.  Não é sobre me ausentar da dor. É sobre me permitir vivê-la e me permitir partir dela, mesmo que diferente. Então acolher o que escolho fazer com a nova que sou. 



Rir é rito. Por coração pela boca e olhos.
Encontrar no caos, poesia e no Tempo, uma amiga.

Kintsugi

 Começo a me sentir confortável na minha pele. Os dias, o raio de sol, o café na varanda, o nascer e morrer das folhas que preenchem a casa voltam a parecer parte de mim. Ontem fui pega de surpresa pelas lágrimas ao final do filme. Passei 4 meses brigando; não com o mundo, mas comigo. Teimando com coração, cansando os olhos, sobrecarregando os ombros.

O que tenho feito com todas as frestas entre os cacos de vidro quebrado espalhados em mim? Ressignificado.

Não há como impedir as feridas, as dores, as rupturas e tudo que elas causam dentro. Não há como fazer uma vela que queimou até seu fim reacender. Quando velas se esgotam, acende-se uma nova.

Procuro as velas dentro de mim. Elas que alumiam estes cacos de vidro, elas que anunciam os vitrais que carrego no peito. É luz e sombra e não há como ser diferente.

Rejunto os sulcos da alma com mica e torno sagrada a minha existência, apesar das dores. Aleluia.

O primeiro deste ano

Ando aflita para escrever.
Não.
Ando aflita para escrever aqui.

Com frequência tenho sujado a lateral da mão direita de azul. Escrevo, escrevo, escrevo em papel sem pauta mesmo sabendo que não tenho a destreza necessária para não usar as linhas. Muitas vezes escrevo palavras soltas e frases que dizem profundidades nas quais ainda não consigo mergulhar.

A verdade é que as palavras tem me exigido o barulho dos dedos contra as teclas. Exigido de mim o deslizar dos dedos entre os espaços para que os textos se construam sem esforço. É como se na tentativa de escrever no papel, eu ainda tivesse controle e quando digito tac tac tac tac não tenho outra alternativa senão ser surpreendida pelo que escrevo.

No nosso último encontro tracei na perna entre desenhos desengonçados;"a eterna busca do erro" entre rabiscos de barcos, flores, espelhos, uma vela acesa e um pandeiro. Tenho tentado me permitir várias coisas. Dentre elas, ando trabalhando a ideia de que não há em mim os motivos que busco para a partida do(s) outro(s), vez e tanta ainda vacilo e você me puxa para perto. De certa maneira, aprendo sobre o cuidado.

A ansiedade se fez presente, mais uma vez e eu ensaio o inspirar lento e expirar fundo e ouço o som dos micos que gritam afoitos nos galhos e das maritacas que tagarelam do fio do poste e das cigarras que se exibem camufladas entre o tronco na tentativa de me recordar que há muita vida e há muita vida boa. 
Então trago para a memória pensamentos bons sobre o viver, as experiências e o tanto de mundo que existe por ai, feito de gente que dá vontade de experimentar a vida. 

Passo os olhos sobre o tempo, este que é amigo mesmo quando estamos em guerra ferrenha. Que sabedoria existe nesta carcaça que de tudo duvida? Como aprendo a confiar mais em mim para confiar mais no outro para acreditar mais no mundo?

Este mesmo texto, em outros tempos escreveria a fio sem saber muito bem por onde seria conduzida, como quem abre uma trilha nova em meio à natureza inebriante. Hoje, dou passos lentos por entre os parágrafos construindo um caminho de passos e marcações para que eu não me perca naquilo que sinto. Por um milésimo de segundo penso que há alguma sabedoria em respeitar o tempo de sentir com as mãos ao invés de correr desesperada por entre florestas sentindo as ranhuras de galhos que não vejo, brigando contra cipós com as mãos. Há uma sabedoria no descanso entre as frases, no observar o fundo do texto como quem conversa olhando fundo do olho para mostrar que quer sim entender e se conectar.
Então, escrever pausadamente é me permitir me conectar comigo.

des e re. aprendo.

Que 2024 se apresente em aventura.

366 dias corajosos.

E que se possa viver verdadeiramente o desejo de se colocar no mundo.

Que na bagagem do coração sempre tenha espaço pro novo.

Que tudo que passe por mim possa ser transformado pela beleza do amor, assim como me transformo eu.

E que a vida e a arte se misturem cada vez mais e mais e mais e mais.

 2024: O tempo caminha.

Lembrar de não levar a vida tão a sério.

 Um manifesto de desejo.

Depois de 2020, depois dos lutos, depois do grande esforço da vida. Foi arrebatador me reconhecer em mim. 

Recordar que tudo tudo tudo nessa vida é passageiro, inclusive as farpas do mundo que as vezes encravam e inflamam.

Repeti durante os últimos anos sobre a beleza do viver para que eu nunca mais me traísse ou duvidasse do quê de bonito que o cotidiano tem.

Eu tinha essa mania tola de querer resolver a vida toda entre os fins e começos e fins e começos quando na verdade a vida circula entre eles cheia de fulgor me apresentando a grandiosidade de absolutamente tudo que me cerca.

Andei calada, outras vezes aflita, tantas outras tão cansada de tentar estar presente sem saber muito como me colocar ali em meio ao desconforto.

Mas não é sobre o ontem. É sobre o hoje. Sobre o agora. Sobre o milésimo de segundo em que escolho olhar com delicadeza pra mim e pro mundo.

Ontem eu ouvi o episódio da @paradarnomeascoisas que dizia escolher viver um ano de coragem e verdade e achei de uma boniteza sem fim. 

Que 2024 se apresente em aventura.

366 dias corajosos.

E que se possa viver verdadeiramente o desejo de se colocar no mundo.

Que na bagagem do coração sempre tenha espaço pro novo.

Que tudo que passe por mim possa ser transformado pela beleza do amor, assim como me transformo eu.

E que a vida e a arte se misturem cada vez mais e mais e mais e mais.

 Há de se ter o momento de reconexão. Se permitir sentir. O vazio. O estranho. Encarar as manchas dos móveis que antes ocupavam espaços dentro dos cômodos do coração.

Há de se encarar o incômodo em não saber mais quem se é e nem o que fazer com aquela marca que te lembra que algo ali existiu e nao existe mais. 

Há de se querer o novo. 

Mas antes do novo há o nada.

O abismo.

Há de se encarar o abismo com doçura.

E o medo.

Há de se encarar o medo da falta.

Permitir o vento assobiar por entre as janelas e as próprias palavras ecoarem dentro.

Então quando tudo for parte...

Há de se encarar o novo.

Repasso o passado.

Esmiuço as memórias.

As andanças, os dias de sombras na parede à luz amarela do poste da rua. A gargalhada alta até cair no sono.

Penso que era pra ter sido endurecida pela vida.

Desagua o coração.

Para meu amor,

 de quem sou, daqui de 2023.


Eu não espero que você me ame como algum dia amou. Eu acredito que todo amor seja o primeiro e por isso, único. Eu espero que cê me ame desse jeito de mistério. Mistério esse sem grandiosidade, mas de quem descobre um cômodo novo quando se acende uma luz, quando se ouve uma música gasta e se descobre algo novo por dentro, sabe?

Eu não quero que o passado suma, nem que as dores passem, nem que o vivido se desfaça. Se foram os amores, as dores, o vivido, o sentido que nos fez trilhar o caminho que trilhamos e cruzar os dias por um momento e escolhermos cruzar mais e mais horas destes dias.

Eu não espero ser tudo. Nem ser precisada. 


Eu quero ser pensada com carinho e considerada pra planejar junto. Quero sentir a saudade mansinha no peito se preciso for afastarmos, quero aguardar a chegada nestes momentos, também. Quero confiar, de peito tranquilo, na ética da relação. Poder trazer os anseios que pesam o pulmão e que incomodam pra cuidarmos juntos do lar que construímos no peito um do outro. 


Quero ser livre e te permitir ser livre também, porque sabemos que nunca faltará tato com os sentimentos que escolhemos nutrir.


Eu demorei tempo demais pra escrever mansinho o que afligia meu coração. Esperei tempo demais as semânticas que jamais virão, porque o amor que expande em mim é amor de mesa farta, de coisa simples que alimenta tudo. 


Eu demorei tempo demais pra dizer que quando amar, amarei com quase tudo de mim. E eu espero ser amada com quase tudo de você. Que eu espero ser acolhida naquilo que ainda não consigo curar, como espero conseguir acolher você naquilo que ainda dói. Que o trato irrevogável seja o cuidado com os afetos e que nunca nos falte o carinho, principalmente nos momentos em que mais for difícil estar de peito aberto. 


Para plantar os dias juntos, para dividir as regas, para preparar cafés, para se irritar no caminho, para rir nos desencontros, para redescobrir como se reencontrar.


Que amor nos seja uma ética de vida, quando a gente se escolher se amar.


Esse é um trato que faço comigo, neste amor que cultivo, para que te amar não seja me desfazer de mim.


 Gostaria de ter sido crua e mais visceral, mas ando tateando o coração com cuidado. Quando as coisas são assim, não há como escrever de outra maneira que não seja cuidadosa, também. 

As palavras refletem tudo o que sinto e sentir tudo vagaroso me deixa ruminando dicionários.

O mundo desagua pelos olhos. Amém.

 Demorei a abrir o computador. Brigava internamente com o desejo de escrever e a vontade de sentir. 


Ando tentando estar atenta para enxergar as respostas para todas as perguntas que desatei a fazer. Como aprender a ouvir a ausência do outro? Reconheço o anseio no meu peito. Eu não sou as pessoas que partem. Sou feita das pessoas que permanecem. 

A chuva bate na janela e os pingos mancham a colcha sobre a cama. Não há urgência em impedir que a tempestade rasgue o tempo e acinzente tudo. Enquanto isso, vasculho o peito aberto, o coração chagásico, este rosto que nada reflete procurando o que pesa dentro de mim. O desejo não é algo que se convence e tenho tentado ouvir todas as nuances que a falta tem a me dizer. É curioso te dizer que não escrevo tanto, porque sinto muito e dou nome às coisas que aprendo a reconhecer. 

É que todo mundo é feito de completude e de vazio e a sabedoria reside em saber quais são as ausências que são tão nossas a ponto de serem parte importante de nós. 

Eu sei que gostaria de ter feito muito diferente, mas fazer de outra maneira não me traria aqui, onde reconheço os cômodos vazios do meu coração sem a ânsia de tentar preenchê-los. Eu te contei com olhos marejados que não haviam culpas e chorei calada ao te permitir acessar estes lugares cheios de nada com os quais lutei por muito tempo.


Aprendo a descobrir o mundo com o coração, aberta ao acaso de ser quem sou e dar conta do que consigo. Me permitindo sentir os incômodos, deixando que eles se demorem o tempo necessário antes de partir. E eu sinto, sinto, sinto, sinto. As ausências, as presenças, os medos, os desejos. Como não ser corroída pelo anseio de ser outra coisa do que se é?

Elaboro os lutos. De tudo que não pude ser. De tudo que não pude viver. Das escolhas dos outros em não permanecer.

Elaboro o amor. Por tudo que dei conta de fazer. Por tudo que me permiti desfazer. Das escolhas em permanecer onde me cabia por inteiro.

Não espero estar pronta para nada. Me preparar para a vida me impede de viver.

Descubro como se constrói, colocando tijolos.


10 de setembro de 2022


Me sinto voltando ao fundo. 

Andei angustiada porque havia tempo que não escrevia. Tenho questionado tudo à minha volta e a ansiedade corrói toda paz que aos poucos tento encontrar. O meu coração anda apertado, porque já não me caibo no passado e no presente reside as incertezas das quais não tento mais fugir. E dói. Dói tudo. Ossos, ombros, mãos, cabeça, joelhos e coração. Por um simples momento eu queria respirar fundo e confiar em mim, mas às vezes sinto ser impossível mergulhar fundo e que corro e corro neste banco de areia sem fim.

Talvez seja isso e eu tenha nascido para ser nada além do que já sou e para não dar nenhum outro passo além do que já dei. É que não me conformo.


Tenho tentado me abdicar de certas visões para dar espaço para o desconhecido. Equilibrando a empatia e a sabedoria que residem em mim. Mas me sinto culpada e culpada e culpada. Questionando o tempo inteiro as escolhas que faço e os caminhos que percorro, tentando me perdoar antes mesmo do erro.

Então, vem o sentimento - qual? - e a exaustão.

Primeiro, a raiva. Aquela que me persegue por onde quer que eu vá, feito um animal ferido precisando de cuidado, mas pronto para atacar. Me aproximo aos poucos desse sentimento, respirando fundo e respeitando seus limites. 

Depois, o remorso. Porque eu deveria ter dado conta e não dei. Porque me afastei de quem amava, porque não cumpri expectativas que eu mesma criei.

Então, a apatia. Desisto de tudo. Exausta de sentir e viver, vou abrindo mão do controle, com medo de encontrar pessoas, calculando minimamente a energia que possuo para sair de onde me encontro.

Há, em mim, uma teimosia primitiva. Me esforço pra me reerguer e aproveito qualquer fresta de sentimento afável que consiga alcançar e nela me ancoro, enquanto dá. Talvez seja isso que precise ser aceito.

Olhar para dentro com a mesma delicadeza que pratico olhar para fora.

Sem esperar que todos escolham permanecer, que todos escolham tentar mais um pouco, que todos deem conta de respeitar os silêncios quando ele vem. 

Isso, enquanto luto contra o desejo latente de me isolar em mim, por medo de perder tudo. Por só conhecer o vazio que fica. Por receio das dores que fazem parte de uma vida de quem vive.

Eu não sei como pedir perdão, nem como perdoar ainda.

Mas enquanto viver, busco maneiras de encontrar essa paz.


Casas

Qual o seu sonho egoista? O sonho que nao muda nada, mas muda tudo.
Minimalista.
A janela grande do quarto, de frente pro oeste, onde o sol se deita.
O quintal pequeno e verde, cheio de insetos para acompanhar os ciclos da vida e recordar que sempre há o fim.
E o começo.
A viagem solo até aquela cidade clichê, que você deseja conhecer em segredo e abosrvê-la pela pele, aprender a ser cidadão do sonho.
O sonho egoísta.
Sem ninguém à vista, sem medo a deriva, sem âncora.
O sonho seu.
Eu queria ter tido a chance de mergulhar mais na vulnerabilidade que você me entregava, de forma tão natural. Foi o que eu respondi pro Caio quando ele soube da sua partida tão precoce e me perguntou como eu estava. 

Eu estou desacreditada. Porque eu já estava ansiosa pra ver seu sorriso de orelha a orelha de cima daquele palco, atrás da mesa de discotecagem, mandando um beijo longe e de braços abertos. É que nossa história começou antes de começar e seu sonho me deu a chance de entrar em contato comigo mesma e ter a certeza de que pelo menos uma vez ao mês eu seria verdadeiramente feliz.

A verdade é que eu ficava perplexa em como você era entregue a tudo que sentia e como podíamos falar sobre qualquer coisa sem muito receio. Eu queria ter tido menos medo e mais coragem, como cê mesmo dizia. É que não vou mais abrir meu melhor sorriso,  quando começar a bater palma no ritmo de Pequena Eva e o café vai ser um pouco mais amargo na caneca que você achou minha cara enquanto fazia compras. Eu já sinto falta da relação que recentemente decidimos construir juntas, como sua futura amiga desprovida de rabugices, como cê gostava de dizer.

Eu não perdoo o acaso, o tempo, a efemeridade da vida.
Envelhecer talvez seja aprender como preencher buracos.
Envelhecer talvez seja aprender a conviver com eles. 

axioma

Dia 21 de abril, eu falei que se você estivesse aqui diria que a gente precisa continuar vivendo. Choramos, minha mãe e eu. Porque sabíamos que era verdade, mas também porque não sabíamos como seguir. 

Dia 21 fazia 9 meses e eu só percebi isso hoje, dia 11 de julho. 

Eu sei que o tempo é humano.
É que também sou humana por demais.

Fazem 355 dias que vez ou outra as lágrimas me saltam os olhos.

processos

 Escrevo para sentir.

Sonhei há duas noites atrás que estava na cidade escolhida por meu coração e via as palmeiras se firmando contra a tempestade no céu enquanto eu procurava um abrigo qualquer, mas não sentia medo. Então me falaram de você e eu escutei com atenção porque sabia que havia sabedoria naquelas palavras. 

Eu não sinto a raiva e nem o peito em dor quando penso sobre essa vida de ausência. Aprender a humanizar pessoas para além das relações que se estabelecem me ajudou a ceder ao perdão e me libertar da culpa de não ter conseguido te fazer permanecer. 

Eu me permito construir uma vida que não seja guiada pelos traumas, porque ainda há tanto a ser sentido explorado saboreado tateado neste mundo e escolho como guia, o amor. Mesmo que ainda não confie plenamente nele, cedo aos poucos aos seus encantos. 

rascunho de pensamentos sobre o amor e perdão. (sei que quero dizer algo, só não descobri o que)

 Faz dias que não escrevo, pois escrevo quando há sentimento demais a ser sentido e ainda não sei muito bem o que fazer com o coração em minhas mãos. Escrevo para que eu consiga sentir sem me desesperar.

Ando pensando sobre o perdão e em como ele é uma ferramenta poderosa de autolibertação. Ando lendo muito sobre o amor, também, chegando a conclusão - durante um banho rápido - de que o alicerce de um amor é o perdão. 

Amar nos encontros, é fácil. Nas similaridades, no comum, na unificação. Difícil é amar na bifurcação e nos erros e nos vícios. Amor é pedir perdão e querer perdoar.  

o amor

Eu acredito piamente em Deus, como o universo que tudo vê, e mantenho em mim a fé de estar sendo ouvida em cada prece. Digo isso porque andei de uma forma apática demasiadamente sofrida. Sem saber muito bem o que fazer com as verdades que escavei sobre mim. Onde me edifico? Clarice um dia escreveu que deveríamos ter cuidado para não abrir mão dos defeitos que nos alicerçam. Por muitas vezes pensei em te dizer que seria impossível tirar de mim a vontade de dar conta do mundo, porque era isso que me sustentava. Mas não disse.

Quando perdi o chão e controle das pequenas coisas e quando dei conta de tudo que eu pude e ainda sim a resolução não estava em minhas mãos, eu desmoronei. Acho que foi ali a primeira vez que de fato entendi que - mais do que não precisar – o controle não me pertencia e o meu sentido no mundo desapareceu.

Fato é que depois ter pequenos vislumbres da mulher que abriu mão do controle, eu a tenho amado profundamente e a acolhido também. 

Depois de tanta dor, vejo crescer algo bonito demais e colher o fruto das melhores escolhas, mesmo que mais difíceis, tem me lembrado que em tudo que faço existem porquês mesmo que eu me perca deles algumas vezes. 

Pega de surpresa pelo sentimento de gratidão genuíno às relações que cultivo; me permitindo sentir os desconfortos das escolhas que faço e me mantendo fiel ao que eu acredito. Sentimento de paz que reverbera nos meus dias. Tenho enxergado o amor de outra ótica e tenho amado desta ótica também. O impossível se tornou real quando digo que amo profundamente a mim a ponto de expandir o coração para amar o outro com a mesma profundidade. Então me entrego com meus limites e amo o outro até suas fronteiras para nunca me esquecer a individualidade que tanto prezo.

O amor é minimalista. O amor é expansivo. O amor é muito além do que dizem sobre a entrega por inteiro. O amor é calmo. O amor é paciente e bondoso, primeiro consigo para depois ser com os outros.

O amor é ação. Exercitemos.

Inauguração

 Faz um pouco mais de três anos que minha vida mudou completamente. É que na quinta feira, enquanto eu encarava o calendário em cima do frigobar e remexia o colar em meu pescoço, ela me disse: isso é inaugural. 

Talvez eu devesse pensar neste marco, mas penso em tantas outras coisas. 

Como, por exemplo, os motivos para que eu não me reconheça tão bem nas relações que cultivei. Criei minhas teorias. Eu sempre soube o lugar que deveria ocupar. Desde que abri mão, de forma dolorosa, de me fazer presente somente me doando abri um grande buraco em mim. Quem sou dentro destas relações? Não sei, mas sei que agora entendo meus desconfortos e, como me disseram uma vez, isto é inaugural.

Inaugural também é o perdão, quase como uma revelação. Havia uma raiva infantil que já não me cabia ter e quando eu disse: eu te acolhi, te nutri, mas quero que você vá embora, ela foi. Sobrou espaço para a compreensão. Ou talvez fosse o caminho invertido, permiti que a compreensão entrasse e então a raiva se desfez. Não sei, nunca fui boa em contar tempo, mas tenho me tornado boa em sentir sentimentos. 

É que sábado foi um dia inaugural.

Andei – ou ando – angustiada. As palavras que sempre foram meu refúgio, de repente se tornaram um tormento. Eu não soube lidar com o fantasma da solidão. Aquele que sussurra que o outro está sempre de partida, me deixando em alerta para partir também.

A vida se tornou vazia de coragem.

Eu, que aprendi a amar me entregando por inteiro, na esperança de que isso bastasse para que o outro ficasse. Eu, que aprendi a partir antes da hora, por medo de não suportar a dor da ausência. Antecipava catástrofes para lidar com os escombros que eu mesma produzia. Pelo menos eram meus.

Escolhi, pela primeira vez, a vulnerabilidade e o pedir apoio, mas ainda sim esperei a partida. Aguardando o momento de juntar os cacos deixado no espaço que o outro ocupava.

Entender que compartilhar me fez inteira e tornou o impossível, possível.

Compartilhar o quê de mais sagrado se possui com os outros. Os sentimentos que sinto.

As vezes ainda duvido do processo, mas sigo tentando.

A vida ainda (re)existe

Um breve texto horrível e necessário

 

Sentei no bar e - finalmente! - verbalizei anseios e depois me arrependi. Vez ou outra lembro de como Clarice falava sobre a solitude e a paz que encontrava. Eu não tenho tido medo e isso me assusta. Logo eu, que sempre fui aflita pelo mundo, me sinto entregando todos os pontos. Então, cruzei o portão da minha casa e desatei em lágrimas, sem saber o que fazer com tudo isso. O mundo não é pronto para afetos e talvez eu não esteja pronta para o mundo e ando procurando em cada esquina os motivos que preciso para permanecer.

Tudo é tão frágil. Por um milésimo de tempo acreditei piamente estar curada. O grande milagre. Aqui jaz uma mulher com corpo feito de receios. Mas desatei em lágrimas. Porque eu me sinto tão distante das pessoas das quais me senti próxima, me sinto tão errada por estar descrente, me sinto tão apática e ao mesmo tempo habita em mim uma revolta juvenil pela qual nutro um profundo ódio pois já não há idade para revoltas, apenas para recusas.

Eu me revolto. Mais me revolto comigo, do que com o mundo. Porque eu deveria ter meus motivos para permanecer, mas não tenho. Então o mundo deveria dá-los pra mim, mas não se importam. Me sinto perdida e descolada. Encaro os olhares e me envergonho porque eu não tenho a coragem de ser quem eu sou. Não mais.

São os detalhes e ninguém tem culpa. São os detalhes e não tenho culpa também.

Preciso ocupar a mente com os outros... suas histórias, seus anseios para esquecer de mim.

 

Eu não quero mais fugir. O que eu quero? Não sei.

ando bleh

 

Sou esta mulher narcisa. Procurando sempre nas palavras dos outros as frestas onde vou me caber. Achava que assim encontraria o que há de único em mim, mas a verdade é que eu procuro o que há de comum em todo o mundo. Tenho me surpreendido com o choro que vem como um assombro quando não estou atenta aos meus pensamentos e deixo que eles corram soltos por lugares que ainda não estou pronta para visitar. Os olhos já não incham e há uma sincera ira branda no rubor do meu nariz que vive me lembrando que não há no mundo o controle que procuro.

Penso muito em como minha tia estaria agora organizando absolutamente tudo e em como estaríamos reclamando entre risadas. Penso muito também em como perdoar, porque foram humano quando eu precisava que fossem pai. Como os dias tem passado veloz e os meses ainda sim se arrastam. Li Will – abril de 2015 – porque Will sempre foi apocalíptico nos meus sentimentos, assim como os meses de abril que findam e brotam tantas coisas ora nova ora usadas.

Como andava dizendo, Will escreveu em abril de 2015: “Há um momento supremo na longa escalada dum alpinista rumo ao topo: a queda.” Mas é que eu li em abril de 2022 e desnorteada e enganada pelas minhas memórias, sinto como se fosse a primeira vez que me confronto com Will. Como se eu nunca tivesse escrito sobre Will e chorado com Will.

Cá estou eu. Cíclica. Mais um outono e inverno e primavera e verão e outono.

Li Will, porque não tive coragem para te ler. Esta carta aqui endereçada a tantos porque eu preciso escrever sobre todos vocês. Os fantasmas que me confortam.

Penso e penso e penso sobre o passado. Eu sei porquê. Mas finjo mistério para ser surpreendida com a grande revelação. O calor da pele, a grandeza dos olhos, de quem se descobre tudo pela primeira vez, de novo.

Não há nada de novo nesse texto, porque não há nada de novo em mim. Ando tediosa, apática, desligada, arrastada pelo cotidiano, aguardando o momento da maré me deixar em uma areia qualquer depois de ser orquestrada por uma lua também qualquer.

Existe o poder. Eu sei que existe. Eu quero que exista.

Eu te falei que estava exausta. 

E não estamos todos? Parece que sim, mas é segredo. 

assíncope

Desde sábado sinto que algo muito grande dentro de mim mudou. Gostaria de te dizer o que, mas não sei. Sei que só quem sofre tal mudança conseguirá sentir o que digo aqui. Os planetas se alinham, me dizem que algo visceral me espera. Acredito que o maior ato aconteceu. Desejo viver.


Ela sabia que aquele era seu último ano de vida e ansiava por ele.

Não que houvesse algo de grandioso em sua existência, muito pelo contrário. Uma mulher de trajetória difícil como a da maior parte da população, de trabalho árduo e sorriso no rosto. Sem feições marcantes, com a cabeça deitada no encosto de cadeirante do ônibus, acredita que observa a paisagem dura e cinza do centro da cidade, mas se enxerga no reflexo do vidro.

O pensamento que vem como um salto: o quão digno seria morrer agora?

Muito digno, ela conclui. Afinal, ela estava bem. Morrer significava não se preocupar nunca mais em como pagar as contas, o aluguel, a comida do mês e ser finalmente livre. Livre dos medos que a rodeiam por uma vida. Livre das dores vividas. Livre das dores que virão. Finalmente ser aquilo que sonhara. Do mundo.

Ela, que nunca teve poesia no riso, mas carregava um olhar de gema lapidada de tanta intempérie. Aprendeu a ser bondosa e aquele seria seu legado. Amar a todos que amou sem distinção tentando nunca devolver ao mundo as dores que carregava consigo. As vezes escorregava no seu ideal, porque acima de tudo era humana. Como qualquer um.

Ocorreu-lhe que, pela primeira vez, não temia mais a morte. Nem sua narrativa ora colorida, ora melancólica e então pensou o temido pensamento: quão digno seria morrer agora? E teve medo. Não de morrer, mas do pensamento sobre a morte, em como ele veio naturalmente e ali ficou. Quantas cartas escreveria, livrando a todos das culpas e anseios, sem lhes negar as lágrimas que são por direito àqueles que perdem alguém, como dizem... cedo demais.

É que talvez o céu não a pertença ou talvez deus seja realmente misericordioso e, enxergando toda a bondade naqueles olhos lapidados, a permita no céu. Ela teria da morte, o que a vida nunca lhe deu: a chance de ser uma exceção.

Pensa, ainda refogando os restos que estavam na geladeira, que talvez nunca tenha a coragem para morrer heroína de si mesma. Talvez não tenha coragem de se escolher ao invés dos outros. 

Será que a cerveja congelou? O pensamento a interrompe. Ela lembra do medo de morrer. Para onde foi? Talvez seja a vontade que tenha desaparecido. O que lhe enche os pulmões de ar?

Ela que é uma incógnita que ocupa tantos lugares sem se entregar a nada.

Como Macabéa, a mulher sem alma que morreu atravessada pelo cotidiano após descobrir seu futuro. O futuro dela acabara ali, após uma fração do presente. Então ela pensa porque precisa se entregar à coisas que não a preenchem, só a sugam e engolem?

Talvez não precise. O que ela precisa é abrir mão. De si e dos outros e da sua vontade de tornar o mundo um lugar diferente. Da sua irritabilidade com as pessoas que não questionam. Da exasperação que corroí o peito por entender que as coisas não vão mudar. Não agora.

Ela que desistiu do mundo e só então percebeu que, assim, havia desistido dela também e por isso sabia que aquele era seu último ano de vida. Amém.





 

Talvez este esteja sendo o processo mais dolorido pelo qual passarei, até hoje. É que vez ou outra a culpa me assombra tentando me convencer que eu deveria estar abrindo mão de mim pelo outro, como se o preço de me trair valesse a pena. Eu tenho muito medo de decepcionar pessoas, mas esse medo nunca me impediu que eu o fizesse. A expectativa da expectativa é úlcera e corrói de dentro pra fora as camadas das relações. É que ouvi uma vez que o estômago é o órgão mais sentimental que existe e sendo criada desde cedo a base de pantoprazol e endoscopia, não pude dizer nada senão concordar. Apesar de que, de alguns anos pra cá, tenho sentido muito com a pele também e sendo este o maior órgão, o que junta tudo, o que regenera, o que renasce, talvez precisemos mexer nessa classificação sentimental. Um outro dia.

Tenho escrito superficialidades, por sentir coisas que sei que ainda não estou pronta para mergulhar. Tenho me arrependido de dizer. Desde que aprendi a verbalizar o que sinto com menos medo – mas ainda com algum resquício de receio que acredito que nunca me abandonará -  tenho dito por demais e me pergunto se existe um equilíbrio e imagino meu coração em uma balança antiga, sempre pesado demais. As superficialidades que trago aqui dizem sobre as alegrias que ando coletando, mas a verdade é que não estou pronta para olhar para trás e enxergar aquilo que ando deixando pelo caminho. Eu não estou pronta para abrir mão, mas já não os trago em meus braços mais. O que fazer com o coração que almeja abraçar o mundo e a si mesmo? Eu não sei. Sei que não há como. Abraço o mundo e não me aqueço ou escolho àqueles que trago junto ao peito enquanto me abraço também.

Muito dizem sobre o amor próprio e sobre se escolher, o que eu ainda não li por aí é que as vezes isso é uma merda. Um merda que vale cada lágrima e cada pergunta. Não vi escrito em nenhuma peça de design que tem dias que você vai chorar, tem dias que você vai se perguntar se você vale mesmo todos os sacrifícios que está fazendo, tem dias que você vai querer que todas as pessoas enxerguem apenas o que há de bom em você e tem dias que você vai se questionar se seu valor realmente não está em como você faz os outros se sentirem. Cada uma dessas perguntas, me faço no espelho, encarando as pequenas marcas que trago por tentar me encaixar por tantos anos em tantos espaços distantes demais de mim. Cada uma dessas perguntas, me faço ao lembrar dos meus amores, pensando para quantas pessoas me entreguei por inteiro e depositei expectativas de que fossem se entregar também. Assim, vagarosamente, como quem levanta sonolenta da cama e abre as cortinas aos poucos para que a luz ilumine sem doer as vistas, entendo que as minhas expectativas são minhas responsabilidades e a expectativas dos outros a eles pertencem e começo a me desfazer da culpa em não tentar ser suficiente o tempo todo, a respeitar a partida daqueles que precisam ir, a acolher a estadia daqueles que escolhem ficar. Mesmo que em alguns momentos isso doa e eu duvide que eu mereça amor, eu me recorde que mereço sim e por isso começo cultivando esse sentimento dentro de mim, ainda que em alguns momentos eu mate girassóis.

Há tantos anos, escrevi que era pássaro preso em gaiola de portas abertas e sonhei pular. Talvez a grande coragem não esteja nos saltos de grandes alturas, mas sim em começar a conhecer e cuidar de suas asas. Confiar em si mesmo e na sua capacidade em se sustentar e na sua vontade que mora dentro. Não ser mais uma mulher de espelho no rosto, mas de olhos, bocas e nariz feitos de vitral, porque se reconheceu nas rachaduras, abraçou seus cacos e fez deles arte que no sol colore dentro e fora. No fim, não há arrependimento em me escolher... há saudades, mas eu aprendi que a saudade é instrumento da memória e enverniza tudo que é bom pra durar uma vida.

Sente saudade quem viveu e quem amou e quem errou e quem aprendeu.

Molho os pés na água pra me ambientar. Nem tudo é sobre mergulhar de cabeça.

as palavras ainda estão confusas demais dentro de mim (...)

Pensei em dizer que ainda não sei o que fazer com as culpas que carrego e com os erros que cometo. Apesar de muitas vezes sobressair um pessimismo pungente de minha boca, trago em mim olhos que enxergam corações meio cheios.

O tempo que levo para dissolver o perdão se encurtou e se antes demandava alguns dias tentando separar o que era meu e o que era do medo, hoje já não conto no plural.

É esta vitória que celebro. No aqui e agora.

Me acolhi e me perdoei por não dar conta de fazer da melhor maneira porque eu enxerguei que entreguei tudo de mim.

Eu não tenho medo de morrer. Tenho medo é de não viver e foi quando me dei conta de tudo isso que consegui enxergar os fantasmas que me assombraram por tanto tempo e vez ou outra reaparecem.

Pensei em dizer que eu não espero que você entenda a dor do deslocamento e como foi viver tentando me fazer caber em tantos lugares que não pareciam me pertencer.

Eu não espero que você entenda as micro agressões de me mudar, tentando ter qualquer coisa minimamente parecida com uma realidade distante demais.

Eu não espero que você entenda minha vontade de me afastar e olhar o mundo de fora e descobrir onde foi que me perdi e como – e se – ainda quero ocupar esses lugares doloridos demais.

Se antes enxergava os escombros e entendia que o grande ato revolucionário é o querer, agora rejunto tijolos e construo caminhos e não mais muros.

(...) sigo escrevendo

Ainda não é tempo de colheita

Queria dizer que te perdoo mesmo que não exista um pedido de perdão.

É que tá tocando Caetano e meus olhos marejaram com as palavras de outra pessoa e eu pensei em você, mas não chorei.

Existe tanta coisa em mim que passou a existir antes que eu pudesse dar conta e eu ainda não sei dar nome. Porque dar nome é possuir e significar – como as Teresas e Carlos que escrevi em algum passado que me existiu.

“Tudo que existiu não inexiste nunca mais.” Foi o que Lorena escreveu na página 86 antes de um trecho da música do Rolling Stones que não sei cantar, mas tentei. O que existiu existirá para sempre. Como os cheiros, os toques, as trocas, os olhares silenciosos, as pontas dos dedos gentis que deslizam pelo braço, a voz rouca logo pela manhã. Depois disso não há o antes disso. Para sempre.

Tenho sentido tanta coisa que ando impaciente e cansada. Cansada de não conseguir explicar tudo que eu sinto o tempo todo porque não sei como dar nome. É o exercício da paciência. Ser impaciente.

Escrevo impaciente com as palavras que saem e que as vezes entalam em meus dedos, mas eu li tanta palavra bonita que meus olhos marejaram e pensei que palavras impacientes devem ter lá sua beleza. Pausei a leitura e impacientemente liguei o computador para te escrever que queria te dizer que te perdoo mesmo que não exista um pedido de perdão.

A verdade é que eu não perdoo. Ainda não. Sigo paciente com minhas mágoas.

rotina

Meus dias, muitas vezes, tem sido assim:

Acordo antes do despertador, escuto a gata reclamar porque estou me mexendo cedo demais. Finjo que não é comigo e espreguiço na cama. Às 5:27 da manhã sou grata.

Sigo o dia com uma pequena rotina de esconder as olheiras, preparar o café da manhã, alimentar os gatos e sair para o trajeto matinal de 15 minutos até o ponto do ônibus. Às 6:53 da manhã sou calmaria.

Passo o dia entre acenos, risos, vozes e vozes, cheiros de café, fritura, doces. Acertos e erros, tarefas, tarefas e tarefas. Às 14:49 da tarde sou potência.

Daí uma memória me escapa e chega a superfície. Como o dia que eu usei as meias da Ana Clara para ir pra escola e você foi falar com minha mãe. Às 16:03 sou pura saudade.

Perco o controle das lágrimas e preciso ir ao banheiro para respirar fundo.  Às 16:20 sou ausência.

Recolho o choro, lavo o rosto, coloco a máscara (que me ajuda a esconder o nariz vermelho) e sigo em frente. Porque a vida está aqui. Às 16:26 sou escolha.

De volta para casa, sou recebida com amor. Troco a água das vasilhas, sirvo patê e vou tomar um banho. Às 18:59 sou descanso.

A todo minuto sou a falta.

Reconhecendo

 

 Há semanas ando com a ansiedade a flor da pele. Aquele aperto no coração, olhos marejando com frequência e sensação de que o corpo vai entrar em combustão a qualquer momento. Depois de desenterrar tantos medos escondidos dentro de mim, comecei a encarar a maneira de me relacionar com o outro de forma numa e crua. Junto dessa compreensão, vieram todos os anseios, enjaulados por anos, que eu fingia não ver, mas estavam ali. Sabe quando você arruma a casa inteira, mas aqueles objetos que você não pode jogar fora e não sabe o que fazer com eles acabam naquele quartinho de bagunça? Pois é.

Abri meu quartinho, onde empoleirei meus sentimentos e situações ruins. Comecei a retirar um por um, no meu tempo, a medida que dava conta. Até chegar no medo da perda e do desamparo. A insegurança saiu enfurecida. Me fazendo acreditar por um segundo que a qualquer momento eu seria abandonada por todos que eu amava e, por isso, precisava juntar logo minhas coisas e sair o mais rápido possível de toda e qualquer relação que escolhi estar. A vulnerabilidade é fraqueza para a insegurança. Depois de alguns dias de terapia, muito choro e a escolha consciente de não me movimentar, consigo escrever sobre. A verdade é que ir embora é um movimento tão simples para mim, que escolher permanecer me exigiu muita energia, porque travei uma batalha com o medo. Venci, hoje. É um dia de cada vez.

Volto a reconhecer o carinho, as escolhas dos outros e que estamos todos tentando dar conta de muita coisa. Ando tentando fazer as pazes com os momentos que não permaneci, por não ter o autoconhecimento que construo hoje. Tem sido difícil me responsabilizar por algumas perdas que temi tanto acontecer.

O processo de se conhecer parece bonito, porque quando lemos sobre só chegamos no final. Foram semanas de choro, de raiva, de conscientemente e em voz alta me pedir para respirar fundo. Para entender o que é meu e o que é do outro. Foram semanas na eminencia da perda. Esperando o adeus e o vazio que fica no espaço que a outra pessoa ocupava. Me convencendo que a ansiedade estava distorcendo (e estava mesmo) a realidade.

Ontem chorei pelo luto e também reconheci que não sou mais a mesma e que me escolher muitas vezes significa abrir mão do outro.

Hoje, depois de muitos dias duvidando, me reafirmo que eu mereço ser amada e que eu posso fazer escolhas erradas e decidir abrir mão delas.  Depois de titubear em uma crítica de uma pessoa que não me conhece, eu respirei fundo e decidi escrever sobre a fragilidade que habita em mim e que tenta me convencer que só poderei ser amada quando for perfeita. Percebo, consciente, a insegurança vencida nas minhas relações se esgueirar para o campo profissional, onde ainda dói muito... Porque o fracasso por muito tempo não foi um direito ou premissa. Porque aprendi a me agarrar a toda oportunidade como se fosse minha última chance de ser alguém. Porque eu sempre espero estar pronta para tudo, como se houvesse controle aí.

A ansiedade está aqui. A encaro sem saber muito bem quais passos darei para que ela se desfaça, mas não a volto para o quartinho da bagunça. A encaro. Aprendendo um novo jeito de existir sem temer o mundo por completo. Nem a mim.

Eu detestava muito o jeito com o qual você se obrigava a permanecer. Odiava sua insistência e respirava fundo. Eu não precisava contar com ninguém além de mim, mas lá você estava. 

E agora o que faço com a ausência?

Estou há dias ensaiando as palavras certas para dizer sobre o natal... para programar... como fazer acontecer sem você porque eu escuto suas palavras dizendo que a vida tem que continuar. É que as vezes tem sido difícil. Tipo hoje. Um dia abafado e chuvoso, cheio de cinza e perda.

tímida epifania

 A minha solidão é perigosa. Enfim, conclui.

Sentada naquele sofá desbotado, com a fresta de luz que entrava pela janela denunciando toda a poeira que dançava vagarosamente no ar.

A minha solidão é minha maior zona de conforto e me afasta de qualquer amor. Finalmente, o clarão. Você não se vira, por que já sabe... assim como eu sei que sorri mesmo que eu não te encare.

É que eu deveria ter escrito todas as coisas que precisava ouvir de você, mas tenho aprendido – algumas vezes a ferro e fogo – que a vida não tem roteiro e que com certa frequência escapa das minhas mãos.

É que eu acabo de descobrir que a raiva é mais que tempestade, é alagamento e mofa tudo se não é escoada.

É que eu sinto raiva e mágoa e de tanto sentir raiva e mágoa fui contando só comigo mesma até parecer muito bom não precisar contar com ninguém.

Se a raiva alaga, a mágoa é arame farpado. Machuco a mão enquanto me cerco para ninguém entrar. Mas também não saio.

O que eu venho tentando te dizer -sem script nenhum - além da minha coragem é que ando procurando maneiras de ser de um novo jeito, mesmo que eu ainda não saiba como. Aprender a encontrar as frestas de vulnerabilidade.

Como perdoar o que ainda não trouxe à superfície?

Sigo mergulhando em mim, revirando pedras, vez ou outra voltando para respirar.

Me descolo de tudo que eu fui tentando me acolher no desconhecido.

Já não espero de você as respostas, mas ouço atenta a todas as perguntas que serão bússola para encontrar essa pessoa que procuro ser.

Desta vez não parto dessa sala em despedida, sirvo um café e acendo (finalmente) o cigarro. O compartilhamos.

O buraco que ficou

Quando você foi embora
levou um pedaço de mim e
eu não soube o que fazer
com o buraco que ficou.

Tentei de toda forma tapá-lo
com qualquer coisa que
encontrasse pelo caminho

Usei flores
e durou por um tempo
...
mas murcharam.

Usei pedras
e ficaram lá por um tempo
...
mas se esfarelaram.

Então, um dia eu entendi.

O buraco da falta não se fecha
e tem dias que o sol passa por ele
e a gente se aquece por dentro
com as lembranças que ficam.

Mas também terão dias de tempo cinza
em que a chuva vai bater
e molhar por dentro
pesando o peito e
pedindo sossego.

Sigo aprendendo

Viver é delicadeza e também é força. Isso, eu sigo escrevendo ao longo dos meses e anos para não me esquecer. O que eu ainda não conseguia enxergar muito bem era como viver é perda misturada com medo e coragem.

Eu, que sempre fui aflita com fins, tenho procurado nos últimos dois anos viver o presente e neste exato momento me questiono sobre os dias que deixei passar por mim sem fazer deles recordação.  É que me recuso, hoje, tecendo este pacto de lágrimas comigo e com meu futuro, despender energias além das necessárias. Aprender a viver um dia de cada vez, procurando o quê de romântico que existe no cotidiano. Escolhendo estar com aqueles que amo e mais que isso, dizer a todos a alegria que é tê-los em minha vida.


Verbalizar afetos para que possamos lembrar daquilo que nos mantêm vivos. As relações que cultivamos, o amor que crescemos, as parcerias que construímos.

É clichê, mas a morte nos desperta para a vida.

Eu amo você.
Eu te perdoo.
Eu me perdoo.

desamparo - bibiografia parte 1

Eu tenho noventa novas palavras que antes me seguiam escondidas entre becos e vielas. É que eu jurei ser forte demais para não sentir, enquanto jorrava sentimento pelos olhos. Eu gosto muito do novo, porque é onde me permito errar sem medo.

Comecei a desenrolar o fio bagunçado que é o viver e relembrar dores guardadas a sete chaves. Eu acredito que toda história mereça ser contada, porque todo o ser humano carrega em si o dom de transformar o mundo.

Eu me fiz valente de tão medrosa e quando entendi que o fracasso era um privilégio, fiz o contrato cruel de não me permitir errar e assim enjaulei a alma.

Aprendi desde nova que toda oportunidade precisava ser agarrada com unhas e dentes porque não saberia quando poderia ter uma nova chance. A gente que nasce em um mundo de portas fechadas, ao ver janela aberta acha que é sorte e assim fui me contentando com qualquer oportunidade que surgisse pelo desespero de viver coisas que pareciam impossíveis enquanto me cobrava a total devoção àquilo que me prestava a fazer, pois não haviam chances a ser desperdiçadas.

Me quebrei pelo caminho, para me comportar onde eu não me via, mas precisava estar e agora me questiono como me reconstruir neste espaço que me permite florescer.

Como tiro das costas o peso que carreguei por tantos anos?

Revirei o mundo em desamparo, achando estar tão só que mais que me bastar, eu deveria me esconder.

Fiz de mim meu tameion. Onde oro e choro, em solidão. Encostando minha face sobre minhas mãos apoiadas nos joelhos que não levantam.

É que as coisas acontecem antes mesmo da memória. Como o dia em que tive a primeira crise de ansiedade e, com quinze anos, chorei porque achei ter perdido a prova da escola, às 3 horas da manhã. Porque me senti nômade por uma vida, não só pelas mudanças de escola e casas, mas por não pertencer aos espaços nos quais habitava.

Eu sou a vilã de mim mesma. Eu também sou também aquela que me salva.


insights

Sim, querido universo, eu entendi que a vida existe dentro do espectro do tudo ou nada que eu me impus. Levaram anos, alguns sons, muitas imagens e um vocabulário rico em palavras de tantas origens para eu abraçar o agora.

Eu tô ouvindo Tulipa e de alguma forma estou feliz em entender, neste momento, que os dias ruins também passam, como a chuva que insiste em cair lá fora vai passar, também.

Eu fiz chá de hortelã, porque o cheiro de hortelã fresquinho me lembra a casa de vó. Aquele lugar em que a minha criança era permitida a ser criança. Onde o perfeito não habitava, nem o medo ou as cobranças. Existia ali apenas os desenhos e o cheiro de comida com amor.

Acho que depois de muitos e muitos anos de vida a gente aprende a farejar o cheiro de quem precisa da gente. Vovó me amava porque eu era eu e mais ninguém. Porque eu ouvia suas histórias e a gritava quando começava Terra de Minas e ela me explicava cada cantinho que aparecia ali. Porque eu não tinha medo em dizer que não gostava de pescoço de peru e ela me achava chata pra comer porque eu catava as cebolas e ria seu sorriso sem dentes quando eu lambia o prato.

Eu precisei de tantos anos, sonhos abandonados pelo caminho, algumas crises de ansiedade e um dicionário emocional para encaixar todos os cacos de vidros e começar a enxergar meu vitral.

É que caleidoscópio é mais bonito que espelho limpo e as vezes não se enxergar já é se reconhecer.

O fracasso é privilégio de quem tem oportunidades. Desaprender o que se moldou nas intempéries da vida é mais difícil do que se parece. Como se remove o alicerce no qual construí minha casa?

Venho aprendendo de alguma forma que ainda não enxergo que ser triste faz parte de ser feliz, assim como aprendo que de fracasso em fracasso se constrói o novo.

Aprendido a não abandonar quando o impulso vem do medo do desamparo. Me recordando diariamente que sei muito bem ser sozinha, o que me falta é aprender a ser com o outro e que é no mistério que habita o espaço entre o tudo ou nada em que vivemos, diariamente.


Lubrifico as cordas vocais. Este é o início de ser quem sou.

ando sentindo tanta coisa por aqui - um breve relato

 

Era uma vez um mundo sem reflexo. Onde a beleza só existia dentro da gente e no outro. O mundo sem reflexo. Um mundo que fez de Narciso conto entre gerações e do lago de narciso um marco no mundo.

Andei pensando muito sobre o mundo sem espelhos. Sobre se enxergar no outro, sem perder a certeza do que se é.

Eu sou. Independente de como enxerga.

É que descobri que a tristeza é uma das faces da compaixão, mas ainda não sei o que fazer com isso mesmo que tenha em meus dedos a vontade de contar ao mundo que não se é feliz sendo alegre por inteiro. A tristeza faz parte da felicidade e refazendo caminhos, catando sentimentos abandonados, vou me reconhecendo no vitral que construo.


Fiz um trato comigo
(de que valia?)
que não amando
não sofria
e não falando
não sentia
e só escrever
me bastaria.

Por isso choro
com tanta frequência
é que sentimento represado
rompe jusante
e não tem verso que tampa buraco
por onde vaza lágrima

É a força da natureza 
que reside em nós
tomando conta de tudo
até ser a calmaria
e céu azul 
com sol alto.

Desaprender a ser só.

Kallima inachus

Depois de tudo o que conversamos, talvez eu não devesse estar escrevendo. É que sei que no exato momento em que rompermos a barreira do som, romperemos nossos corações.

Este é um caminho sem volta. O caminho do dito.

De cada sílaba pronunciada com seus fonemas articulados, neste tom de voz melodioso de quem ama tanto a ponto de deixar de ser amor.

É que Letrux cantou que existe o amor depois do amor e eu me apeguei nesta frase por duas semanas sabendo que ela significava algo grande demais para que eu pudesse entender naquele momento, mas aquela verdade era minha como se nascesse junto ao meu coração.

É nela que me agarro, ao me descolar de você sabendo que há fins que são irreparáveis. E indomáveis.

O amor existe e algumas vezes doí, mas tantas outras cura.

E a cura pelo amor é a libertação.

Escorro tudo que sou entre os espaços que o medo deixa. É que eu localizei a ferida que dói e sangra, mas ainda não sei como estancar tudo isso e agora vejo a dor e o sangue que escorrem de mim.

Eu que um dia perguntei sobre o futuro certa que estava em paz pelo passado, me questiono: como vivi?

Talvez eu deva dar uns passos para trás, remover os sentimentos dessa rede de pesca que andei arrastando pelos anos e limpá-los para que possam ser reconhecidos.

Desato os nós da língua.

Desfaço do peito chagasiado.

Há cura para o incurável.

O amor salva quando não idealizado.


 

Como vivo sem minhas palavras?



Como te dizer
que o amor morreu?
que aquele momento doeu?
que estas verdades já não me fazem sentido?
que eu preciso chorar?

Como te dizer?
o que a boca não fala?
o que o coração transborda?
o que os dedos desenfreados
ocupam no espaço das palavras?

Como dizer
o que o coração carrega?
que nem tudo tem pressa,
mas eu preciso correr?

Se as palavras escritas
são areia movediça
cheia de pensamento
a me consumir
e corro
e afundo
e corro
e afundo
e nas rupturas me movimento.

Como te dizer que o ato de dizer me apavora e no meu peito ainda não mora a coragem do dizer.

the cave

 Estamos em lugares tão distantes da vida. Ponto.

E ainda sim, ferrenhamente, lutamos para nos mantermos aqui.

O que sobra dos desgastes das relações?

Vejo o pó se formando, os sentimentos se afunilando e nada fazemos. Quando há tanto para ser feito.

Eu já me calo. Procurando maneiras de passar por essas barreiras sozinha. Me questionando se o rompimento é possível sem estilhaços.

Eu ainda não enxergo como fazer isso, mas sei que estou quase vendo.

É o clarão da luminosidade batendo forte nas pupilas dilatadas de tanto ficar no escuro.

Ainda me acostumo com a claridade. Mesmo que seja com mãos em frente aos olhos, lacrimejando para dar conta. Me acostumo até não doer as vistas mais. E enxergo o mundo a minha volta, desse lugar que nunca aprendi a estar.

É que a vida é bonita, mesmo que difícil e tortuosa e somos responsáveis por nós mesmos. e mais ninguém.

(repito mais uma vez até que seja verdade)

(repitohttps://www.westwing.com.br/i/Camila.Liberato%C3%81vila/1/https://www.westwing.com.br/i/Camila.Liberato%C3%81vila/1/

um ensaio sobre o luto (sobre os sentimentos que ainda desconheço, mas habitam em mim)

O luto é esse buraco na terra onde se planta a saudade que, pra germinar, precisa romper e na dor brota pro mundo se acalmar.
Saudade flori de vez em quando, chove lágrima, e sem aviso prévio gira feito girassol em busca de calor e luz e dai vem a dor bonita que só o luto de quem amou pode fazer nascer. 

Escrevo sobre você porque ainda não sei o que fazer com esses sentimentos que ficam a espreita do seu nome, morando nas minhas lembranças. Hoje, depois de muitos dias, as lágrimas desceram, sem qualquer aviso, ao me deparar com o natal de dois mil e dezenove em que você dançava desajeitada e eu ria e pensava que realmente se precisa de muito pouco para ser feliz. Recordei da irritação que eu sentia com seu excesso de zelo, dos olhos grandes, o cabelo pintado, da voz no telefone preocupada, procurando sempre uma maneira de estar presente. 

E você estava.

No meu nascimento, nas primeiras palavras, nos aniversários, no primeiro contato com a água do mar, pra me ensinar sobre a puberdade e incentivar a usar o biquíni sem me preocupar com as estrias. Cada registro nosso é seu, em tudo que vivemos tem você e, de repente, não tem mais. Eu não sei o que fazer com esse vazio, mas sigo tentando, como você sempre incentivou. 


Espelho

é bonito como me reconheço ao escrever.

a escrita é cura.

é precioso me enxergar em mim.

Mantra

Andei precavida com as palavras, tão precavida que evitava músicas que consiga cantar. Mas hoje me rendo a todas as letras que me preenchem, é que chorei no ônibus quando começou a tocar Principia e eu só percebi as lágrimas quando a voz do Pastor Henrique me inundou. O luto é demasiado mistério. Embarga minha voz, sobrecarrega meus olhos quando surge repentino em um cheiro qualquer na rua e depois se vai e a vida segue. Fiquei por muito tempo com medo de continuar a viver, como se isso fosse uma traição a partida daqueles que amo. Sigo colecionando culpas que não me pertencem.

Culpada por estar viva quando tanta gente morre e culpada de estar cansada em tantos momentos ao invés de estar grata. Essa semana eu pensei em escrever um livro e esta foi a primeira vez que essa vontade não me pareceu absurda e eu sorri. A sensação mais gostosa que alguém pode sentir é a de ser pega de surpresa com a força de se acreditar em si mesma. Eu acreditei que poderia escrever um livro, como acreditei que poderia escalar uma pedra: confiante nos meus processos e em tudo que eu ainda não sei (mas ainda saberia).

O aprendizado é um frio na barriga. Mas andei precavida com as palavras para não escrever verdades que não me pertencem. Começo a reconhecer os sentimentos, as vontades, acolhendo os medos que são meus para que possa permitir que eles se desfaçam aos poucos. Quando você me disse que partiria por um tempo, achei que não conseguiria suportar sua ausência, mas a verdade é que sobrevivi, assim como sobrevivi ao viver por vinte e seis anos.

Ando por aí fazendo planos, repensando dores, perdoando o passado, acreditando na vida piamente sem arder em pânico pelo futuro que ainda nem me pertence – e nem sei se pertencerá.

Que loucura é viver. Que loucura e que espanto é viver.

Além de um livro, quis me tocar e aprender violino e a andar de patins e a pintar. O desejo que, antes adormecido, arde no peito agora. Um desejo visceral de experimentar o mundo que me rodeia, mesmo que não seja de imediato. Então crio planos, como nunca criei. Respiro fundo, no que é possível e quando será possível, sem me prender a eles em frustração. Sigo reconhecendo meus feitos e olhando pras conquistas sem diminuir as perdas, sem minimizar a dor e pela primeira vez eu consigo sonhar sonhos que são só meus e que me recusava tê-los por parecerem impossíveis.

Que viver é o mistério!

Não é que eu tenha superado a ansiedade que nasceu comigo e minha urgência em estar sempre presente para todos que amo. É que tenho colhido os frutos de aprender a me reconhecer e acolher quando não dou conta de estar bem. Reconhecer a raiz dos sentimentos que julgava horrendos - e, por isso, escondia fundo - e de tão necessários que são, corriam de dentro de mim fantasiados como outra coisa que eu fosse aceitar. Entender como tudo desandava, sentir as coisas começarem a flutuar antes de realmente saírem do lugar e respirar fundo. Me perdoar por todas as vezes que isto não for possível, mas me agradecer por escolher reconhecer meus erros como meus e me dar a oportunidade de não repeti-los, mesmo que o costume me faça escorregar vez ou outra.

Sigo não sendo perfeita, como nunca fui, mas sofrendo um pouco menos por não ser tudo aquilo que todo mundo precisa o tempo todo.

O amor não é loteria. É reconhecer e é se entregar.

Sigo tentando.


Estoy bien.

Ato 1

 Quando, dia 5 de outubro, escrevi que Nada mais efêmero que o agora. 

Hoje fazem cinco dias. Cinco dias que o choro me pegou desprecavida durante um dia ensolarado e bonito. Cinco dias que não consegui lidar com o cotidiano e senti inveja em como a vida de todo mundo continuou enquanto na minha havia um buraco que permaneceria pra sempre. De pá em pá o encho de saudade, mas ele permanece. É que faz dias me pediram resiliência. Como ser¿ Sigo tentando.

Minha avó chora e as vezes briga. É que ela disse que ninguém está preparado para perder um filho saudável e que Deus sabe que quando ela pergunta ‘’Porque?”, ela não está pecando, está buscando sabedoria. Mas, Deus, por que?

Aqui somos casas de pares e você abriu uma cratera sem nenhum aviso prévio. Porque?

Uma pessoa que reúne duzentas outras para velar sua ida. Porque?

Nesse momento estamos todos ajoelhados, catando os pedacinhos espalhados pelo chão, sabendo que sempre faltará um.

Eu que sempre escrevi sobre a saudade e os fins, não soube como sentir a falta dela. Eu nunca vou saber. E, por isso, eu já consigo me perdoar.

A dor passa, a saudade fica, as boas memórias, como as mensagens e ligações que você me fazia até eu te responder que estava tudo bem e não precisava se preocupar. Como o biquíni pra minha primeira ida a praia, as viagens de carro, os pratos prontos do almoço de quando eu chegava da escola, a risada alta, os picolés na beira do mar, as dicas de beleza e produto, o café aguado e doce que você fazia, quando sai da sua casa para a prova da faculdade, limpando o molho vermelho do macarrão que você fez correndo pra gente não sair sem almoçar. Mamãe contou que, depois do meu pai, você foi a primeira pessoa a me ver. Entrou escondida quando o médico anunciou minha chegada e depois disso são tantas fotos e vídeos revelados por você, na sua casa, no seu colo.

O que eu faço com toda a presença que você ocupava?

Eu ainda não sei. Por aqui, nos agarramos no espaço que você ocupava na gente tentando nos reerguer um ao outro.

Me surpreendo com as novas lágrimas que surgem.  

Estas não serão as últimas palavras para você.

a carta cosí inifinita (rascunho)

É que se passaram dez anos e eu não soube te dizer tudo o que sentia. Talvez se eu pudesse viver tudo o que vivi, entendendo como dividir a vida sem tentar carrega-la nessa concha gasta, te falado como as coisas aqui desandaram e ter decidido a dois. Talvez se o amor não me assustasse tanto. Talvez se me chamassem de feliz ao invés de forte. É que eu me acostumo, mas eu não te esqueço, foi o que eu ouvi na rádio enxaguando as vasilhas de um jantar que poderia ter sido nosso, mas não foi. Talvez eu não te esqueça, porque é você minha jaula e eu sigo sendo esse animal ferido preso em tuas mãos que me amaram quando eu não podia suportar o amor e eu sinto muito e sinto tudo o que deveria ter sentido quando nos ligamos por uma última vez. Pois é. É que eu fui feliz ao seu lado, sem saber o que fazer com a felicidade compartilhada, fingia ser minha e só e assim te magoava sem perceber. É que eu deveria ter aprendido a ser vulnerável ao invés de aprender a dar conta de tudo. No malabarismo do sentir, me agarrei ao orgulho como um escudo contra a tristeza, sem perceber que ela andava comigo protegida também. Foram dez anos e eu deveria ter te contado que atravessaria o mundo, te abraçaria suado, te beijaria tranquilo, seguraria sua mão forte, te olharia fundo no olho pra dizer que eu tenho medo, mas tenho mais amor. Eu só não sabia que isso era possível, como eu sei hoje.

Eu sorrio, recordando das duas crianças descobrindo os percalços de estar junto, das risadas, em como ser tão diferente poderia ser tão bom. É que fomos aquela pele solta na borda da unha que só dói quando lembramos que existe e que sempre existe na borda da unha. 

felicidade sóbria

fazia tempo que não sentia os pensamentos correrem livres entre meus olhos, por dentro de minhas narinas, passando pela minha boca, atravess...